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Formação Geológica
Uma costa formada por cataclismas
Colar de águas no litoral, a herança de 200 mil anos
Aparados,
uma aula de geologia
Páginas sobre o município de
Mata, onde as madeiras petrificadas que afloram numa vasta região documentam o passado
geológico do Rio Grande
Uma costa formada por cataclismas
Há mais de 500 milhões de anos a pressão do magma nas camadas
inferiores da Terra levantou a crosta terrestre, formando enormes montanhas nas
imediações da região onde está hoje a costa do Rio Grande do Sul. Ventos
violentíssimos começaram a desgastar essas elevações - o chamado escudo granítico,
que se estendia de Montevidéu ao Cabo de Santa Marta, em Santa Catarina -, fazendo surgir
uma camada primitiva de areia.
Por mais ou menos 120 milhões de anos houve um grande derrame de lava a partir de fendas
na parte central do país, em treze ocasiões diferentes, trazendo a lava até uma boa
parte do atual Rio Grande do Sul. Foi criada uma barreira para o avanço do mar, numa
linha imaginária que pode ser estendida de Torres a Sant'Ana do Livramento, passando por
Porto Alegre.
Muitos tubarões nadaram à volta do Morro Palomas, em Livramento, onde atualmente se
plantam parreiras e se produzem uvas para a elaboração de vinhos finos. Chuvas
torrenciais, ventos fortes e toda a sorte de intempéries, passaram a desgastar a rocha
basáltica que se formou em decorrência dos derrames. Nessa época não havia litoral,
mas apenas rios que vinham de cima carreando sedimentos e com uma violência sem nada
igual atualmente, revelam pesquisadores desses fenômenos.
Com a erosão, os mares primitivos foram sendo assoreados e a pressão da água consolidou
a plataforma continental. Por seu lado, os mares também passaram a lançar areias sobre
os sedimentos basálticos que continuaram descendo a serra. Isto acontecia nas chamadas
transgressões (avanços), durante as quais o mar invadia o continente - por milhões de
anos avançou e recuou e as areias que depositava, associadas aos sedimentos que escorriam
do planalto basáltico, é que formaram o solo de nossa costa.
Até o Mioceno, há sete milhões de anos, a sedimentação do atual litoral era feita
apenas em decorrência do efeito das intempéries no derrame basáltico. Chuvas
torrenciais e ventos muito fortes desgastavam o basalto e levavam seus resíduos em
direção ao mar. Em Mostardas, por exemplo, cientistas encontraram uma camada de 100
metros com esses sedimentos trazidos pela erosão do derrame basáltico. Por essa época
(há sete milhões de anos) é que o mar fez a primeira transgressão, colocando sobre
tais sedimentos mais uma camada de areia, que em Mostardas alcançou até 1.153 metros e,
num de seus extremos, apenas 40 metros.
Depois desses eventos do Mioceno passou a predominar a sedimentação basáltica, que
voltou a atingir o ponto máximo também em Mostardas - 270 metros, decrescendo
gradativamente de leste para oeste até os contrafortes do Escudo Pré-Cambriano (formado
há 4,55 bilhões de anos, nos primeiros momentos da formação da crosta terrestre).
Essa sedimentação continental foi dominante entre os últimos sete milhões e 12 mil
anos, embora tenham, alternadamente, ocorrido algumas transgressões e regressões do mar,
dando os contornos definitivos do litoral. Foram essas transgressões e regressões que
desenharam a atual geografia - como o cordão de dunas e lagoas que se estende por toda a
costa.
Mas as transgressões e regressões somente puderam realizar seu trabalho porque o derrame
basáltico elevou a base da nossa costa, sobre a qual o mar depositou areia. Havia uma
transgressão quando as calotas polares derretiam, o que acontecia nos períodos chamados
de interglaciais. Nos períodos glaciais o mar recuava e uma evidência desses
acontecimentos é a plataforma continental, que adentra o mar até 300 quilômetros. Num
determinado momento, o mar chegou a baixar cem metros em relação ao nível atual.
Como o Rio Grande do Sul estava na extremidade do derrame basáltico, o processo de
transgressão e regressão do mar foi muito mais acentuado. Nos estados ao norte ele foi
pouco significativo pelo fato de o derrame basáltico ter sido mais violento, formando,
conseqüentemente, uma crosta mais alta. Assim, nesses Estados, há logo depois das praias
grandes cadeias de montanhas e, no litoral, bonitas baías que tornam o veraneio mais
tranqüilo.
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Colar de águas no litoral,
a herança de 200 mil anos
O Rio Grande do Sul é o segundo Estado do país em corpos de
água. Só perde para o Pará. Considerando-se arroios e rios, existem 118 mil corpos de
água diferentes, segundo um levantamento baseado em fotos de satélite.
Somente em lagoas, são 12.908,10 quilômetros quadrados tomados pela água, o que
corresponde a cerca de 4,57% da superfície do Rio Grande (de 282.062 quilômetros
quadrados). Um verdadeiro cordão de lagoas estende-se pelos mais de 620 quilômetros da
costa do Estado, formando uma das mais belas geografias litorâneas do país. Há tanta
água, que muitas dessas lagoas são bem visíveis até em fotos de satélite, feitas de
grande altitude.
Tudo isso foi construído pela natureza ao longo de mais de 200 mil anos, por força do
movimento de avanço e regressão do mar sobre a superfície da costa. É o que demonstram
estudos realizados na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Quando houve o primeiro avanço do mar sobre o continente - na fase em que começou o
delineamento propriamente dito do atual litoral - há 230 mil anos, formou-se uma barreira
de sedimentos na cota de 20 metros acima do nível atual, que se aproximou da Serra Geral,
próximo a Osório, e se estendeu até as imediações de Palmares do Sul. Quando o mar
recuou, 50 mil anos depois, deixou uma grande superfície inundada. No final desse
período, há 180 mil anos, houve um novo avanço do mar, só que até a cota de 16
metros, criando uma nova barreira para aprisionar a água que estava acumulada.
Esse terraço estendeu-se de Torres até são José do Norte, completando a caixa de uma
primitiva Lagoa dos Patos, que formava uma unidade incluindo as Lagoas do Casamento e dos
Barros.
Nas dezenas de milhares de anos seguintes, com nova regressão do mar, a erosão e
sedimentação das enormes massas de água que se formaram foram constituindo outras
barreiras que isolaram inúmeras lagoas principalmente ao norte de Osório. Numa nova
transgressão, há 80 mil anos, que chegou até a cota de oito metros, foram cobertos
todos os baixios entre os terraços anteriores e, quando o mar recuou novamente nos 60 mil
anos seguintes, restaram novas lagoas em nossa costa. O último terraço surgiu há cinco
mil anos, aprisionando as Lagoas Itapeva e Quadros e as lagoas em rosário de Tramandaí
até São José do Norte e em todo o litoral Sul. Ficaram esculpidas, assim, todas as
nossas atuais lagoas.
São, no total, 61 lagoas, entre as quais se destacam três: a Mangueira, com 802
quilômetros quadrados de área; a Mirim, com 3.520 quilômetros quadrados e a dos Patos,
com 9.280 quilômetros quadrados - esta ainda está em formação e, no futuro, em
decorrência da imensa carga de sedimentos procedente dos rios formadores do estuário do
Guaíba e de suas margens, tende a se tornar mais rasa e espraiar-se para suas margens.
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Aparados,
uma aula de geologia
Há cerca de 190 milhões de anos, aquele que futuramente seria o
território do Rio Grande do Sul estava sofrendo profundas modificações. Primeiro, foram
os derrames de lavas basálticas, que saíam, em grande quantidade, das falhas que se
formaram em diversos pontos do sul do atual Brasil. Esses sucessivos derrames deram origem
ao Planalto Meridional do Brasil, com uma extensão total de um milhão de quilômetros
quadrados. Fazem parte desse planalto cerca de 50% do território gaúcho.
Nesta época, ou em um período pouco posterior, uma outra mudança de proporções
também fenomenais começava a ocorrer. O imenso continente de Gonduana, que abrangia as
áreas que se tornariam a América e a África começou a "rachar", e o mar foi
penetrando aos poucos pela rachadura, dando, assim, origem ao Oceano Atlântico e aos
novos continentes da América e África.
Tudo isto, é claro, ocorria muito lentamente, mas envolvia movimentos tectônicos de
força descomunal, provocando novos falhamentos no então nascente continente da América.
De um desses falhamentos surgiram os Aparados da Serra (com sua maior área no atual
município de Cambará do Sul).
Comparando grosseiramente, foi como se alguém cortasse um bolo e um dos pedaços caíssem
no chão. O pedaço que não caiu no chão foi o dos Aparados, o que caiu ficou debaixo do
atual oceano. Mas ainda podemos ver algumas "migalhas" desse pedaço nos
rochedos da Guarita, em Torres (principal e mais bonita praia, no litoral norte do
Estado), e na Ilha dos Lobos, que fica defronte a Torres.
Uma vez cortado o bolo, a erosão e o tempo foram realizando seu trabalho lento e, como
resultado desse conjunto de fatores, chegou-se à paisagem atual dos Aparados, com seus
ecossistemas específicos e sua feição única.
Impressionando com o que a natureza havia criado tão cuidadosamente, o homem resolveu
preservar a área e, em 1957, o Governo Estadual decretou uma parcela da área dos
Aparados com cerca de 13.000 hectares como de utilidade pública, para fins de
desapropriação, no intuito de instalar, ali, um parque.
Em 1959, o Governo Federal criou o Parque Nacional de Aparados da Serra, incluindo,
então, apenas a área que ficava no município de São Francisco de Paula (e que
atualmente pertence a Cambará do Sul, município criado posteriormente). Em 1972, esse
decreto foi alterado, e incluiu-se no parque cerca de 5.000 hectares em território
catarinense, estabelecendo-se uma área de 13.033 hectares.
A inclusão da parte catarinense do parque (no município de Praia Grande) foi importante,
pois garantiu a preservação da Mata Atlântica existente naquela área. No entanto, dos
cerca de 12 canyons que existem na região, apenas um se encontra inteiramente dentro do
parque: o do Itaimbezinho (cujo nome vem do tupi-guarani Ita, que quer dizer pedra e
aibé, que significa afiada, cortante).
Os canyons esculpidos pela natureza oferecem um espetáculo impressionante. O nome de
"aparados" dá bem idéia do que se vê: campos que, repentinamente, são
aparados, avistando-se paredões retos, muitas vezes de rochas nuas, de até mil metros de
profundidade. O Itaimbezinho, o mais visitado pela facilidade de acesso, tem uma
profundidade média de 600 metros, e estende-se por 5,8 quilômetros. Perto de seu início
o arroio Perdizes se atira pela borda do canyon, formando uma cascata que, com seus
respingos, dá origem a freqüentes arco-íris.
O Parque Nacional dos Aparados da Serra inclui vários tipos de vegetação: na parte
baixa, em Praia Grande, se encontra a Mata Atlântica, que sobe pelas encostas até uma
altura de aproximadamente 600 metros. Na parte de cima, no planalto, estão presentes os
campos e as matas de araucária angustifolia, o pinheiro brasileiro e, nas bordas do
planalto, há a matinha nebular, mata baixa, com árvores de até oito metros de altura,
com muitos musgos. Ela recebe esse nome por se encontrar em local onde é freqüente a
formação de nevoeiros, que sobem da região da planície, criando condições de alta
umidade.
Nos paredões verticais dos canyons crescem, agarrados às frestas das rochas, pequenas
ervas, arbustos e até algumas pequenas árvores e, nas pedras atingidas pelos borrifos
das cascatas, encontra-se a gunnera manicata, com folhas enormes, de até 1,5 metro de
diâmetro e que, além dessa região, só pode ser achada nas florestas dos Andes. Outra
planta que também é cracterística dos Aparados e que, além dali, só encontra similar
nos Andes, é o brinco-de-princesa.
Existem, também, diversos animais que encontram no local uma área de refúgio. A gralha
azul, freqüentadora assídua de regiões de pinhais, realiza seu trabalho de semear novos
pinheiros; algumas aves de rapina, muito raras e ameaçadas de extinção, também podem
ser vistas: o gavião-pato, a águia-cinzenta, o gavião-pega-macaco. Este último pode
escolher, entre suas presas, o mico-de-topete, que costuma andar em bandos ruidosos, e que
na época de pinhão é visto em grande número no parque. Se, entretanto, resolvesse
atacar na área de floresta atlântica, poderia encontrar o bugio-ruivo, que vive nessa
área, onde também estão o macaco-prego, a jaguatirica, o gato-do-mato.
Os animais de grande porte, porém, já não são abundantes, mas algumas espécies, como
o lobo guará (em rápida extinção) e o leão-baio (puma americano) ainda sobrevivem,
principalmente nos locais mais inacessíveis. Mais comuns, entre os mamíferos, são o
zorrilho, o ouriço-cacheiro, a cotia, e os tatus mulita, peba e galinha (estes, no
planalto).
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Rio Grande, o ponto de encontro dos animais
As praias gaúchas recebem visitantes até da
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Variedade influenciada pela existência de água
Resta pouco das antigas florestas
A lenta destruição da Mata Atlântica
Orquídeas são bonitas para atrair insetos
Banhado, ecossistema ameaçado pelo arroz
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