CANAIS

ECONOMIA - VINHO




A religiosidade
dos italianos



"Per la Cesa, doi tuto". A frase, em dialeto vêneto (ou vêneto do Brasil, como querem alguns), resume de forma muito precisa os sentimentos dos imigrantes italianos: "pela Igreja, dou tudo".

Extremamente religiosos, os colonos trouxeram para o Brasil não só a sua fé, mas a preciosa arte de fazer vinho. Essas duas características, sempre unidas, encontram sua melhor definição na Linha Leopoldina, uma das "linhas" coloniais nas proximidades de Bento Gonçalves: ali está a Capela das Neves, uma igreja feita com vinho.

Não se trata, entretanto, de força de expressão: a igreja não foi construída com o dinheiro obtido a partir da venda de vinho. A utilização do vinho foi literal: usou-se vinho para fazer a argamassa da Igreja.

Há cerca de 120 anos, pouco depois de chegarem à Linha Leopoldina, os imigrantes italianos preocuparam-se em construir sua igreja -- que, para eles, era mais do que um local de rezar missa. Ali se reuniriam, festejariam, conversariam.

Tratava-se, entretanto, de uma época de grande seca, e não havia como obter água suficiente para construir a capela. Ansiosos por fazerem logo sua igreja, os colonos decidiram: doariam, cada um, parte de sua produção caseira de vinho, para substituir a água na feitura da argamassa.

Atualmente, a Capela das Neves (consagrada a Nossa Senhora das Neves) lembra o incidente de sua origem através de suas cores: é branca como as neves, com janelas e alguns detalhes de seu exterior em um tom violácio intenso (cor própria dos vinhos tintos novos).

A atitude dos colonos, longe de ser profana, encontra sua justificativa em uma das mais interessantes passagens da Bíblia: segundo o Evangelho de São João, Jesus adiantou a sua fase de fazer milagres, para atender a uma solicitação de sua mãe, que pediu que, em uma festa de casamento, providenciasse vinho para os convivas.

Imediatamente transformou a água contida em seis talhas de pedra em vinho de tal qualidade, que provocou o espanto do chefe dos serventes da casa onde se realizava a festa. Esse episódio, conhecido como "as bodas de Caná" (Evangelho de São João, capítulo 2, versículos 1 a 12), foi o primeiro milagre de Jesus.

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