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ECONOMIA - VINHO





A simbologia do vinho


Nenhuma bebida se prestou tanto a comparações e citações literárias como o vinho. Talvez isto se deva ao vocabulário que se aplica a ele, e que pode, sem medo de ofensa, ser estendido a pessoas e situações. Enquanto que da cerveja se pode apenas dizer que é "loura e gelada" -- comentário que ofenderia profundamente qualquer mulher --, os adjetivos do vinho (quando bom) são os mais delicados possíveis: aroma penetrante, sabor frutado, cor cristalina, gosto aveludado.

Mas o vinho não está presente, na literatura, apenas como fonte de comparativos. Ele se presta às mais diversas situações, e tem, mesmo, os seus "adoradores literários", como Omar Khayyam, poeta persa que morreu em 1123, e que provavelmente é o autor do maior número de poemas relativos ao vinho feitos por um homem só. Mesmo poetas que normalmente se dedicavam a outros assuntos, vez que outra voltam-se para o vinho. "Dá-me vinho, porque a vida é nada", diz Fernando Pessoa em um poema escrito em 1935.

Talvez para se esquecerem da vida, algumas personagens da literatura se apresentam quase que permanentemente bêbadas. É o caso de Fiódor Pávlovitch, o pai dos Irmãos Karamázov, do romance de igual nome de Dostoiévski. Outros, entretanto, parecem manter uma espécie de sanidade mental através da bebida: enquanto Dom Quixote caça os seus moinhos de vento, Sancho Pança, bem mais prudente, entorna suas garrafas de vinho.

A literatura e o vinho encontraram, no Rio Grande do Sul, uma forma muito interessante de convivência: através do Concurso Nacional de Poesias sobre o Vinho, poetas brasileiros que escrevam sobre o tema são premiados com garrafas de vinho. O concurso, promovido pela Universidade de Caxias do Sul, com patrocínio da Uvibra (União Brasileira de Vitivinicultura), é realizado desde 1984.

Há, porém, uma curiosidade. Embora a Serra Gaúcha seja a terra do vinho, têm sido poucos os premiados da região.

A carência de poetas na região talvez tenha uma explicação lógica -- não há maior poesia sobre o vinho do que a de fazê-lo e, portanto, a maioria dos poetas locais encontra-se nas cantinas, preparando a fonte de inspiração para que homens como Mário Quintana escrevam:


"O espírito é variável como o vento...
Mais coerente é o corpo, e mais discreto.
Mudaste muita vez de pensamento,
Mas nunca de teu vinho predileto...
(Das preferências)


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