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As faces do Rio Grande
Falar em um Rio Grande do Sul como um estado único é quase que uma força de expressão.
Porque aqui existem muitos Rio Grandes diferentes, cada qual com sua cultura, com seus
rostos e falas. São as faces do Rio Grande - que são muitas.
Há um Rio Grande açoriano, nas pequenas cidades do vale do Jacuí, que atualmente vivem
suas pacatas vidinhas de interior, mas que já formaram a linha de defesa deste continente
de São Pedro. Há um Rio Grande também português, mas com um rosto diferente, na
região da Fronteira, conquistada a ferro e fogo pelos milicianos. Esses dois Rio Grandes,
um de bombacha e outro em meio a procissões, têm em comum a origem - portuguesa - e a
linguagem.
Mas existe outro, em que as exclamações de "tche" se misturam aos "porca
miseria". É o dos italianos, nas terras quebradas, com seus parreirais subindo e
descendo pelas pirambeiras. Perto dali, tanto em zonas mais baixas - do vale do rio dos
Sinos e outros próximos -, como mais altas, no Planalto, está o Rio Grande dos kerbs,
das oktoberfests, dos alemães. Esse mesmo Rio Grande, de gente clara e fala arrevesada,
tem uma pequena "ilha" em uma região tipicamente portuguesa - são os pomeranos
da região de São Lourenço, que formam uma ilha dentro de uma ilha, uma vez que se trata
de uma cultura de origem alemã, mas inteiramente diferente desta.
Espalhado por todo o estado está também o testemunho de um Rio Grande sofrido. São os
descendentes de negros, trazidos contra a vontade, oprimidos, e que, apesar disso,
conseguiram manter traços de sua cultura. Assim como no passado não tinham propriedade,
atualmente não têm sua região definida. Estão entre todos, mas com uma história
construída de lágrimas que é só deles.
Também de lágrimas é a história de um outro Rio Grande, o dos judeus. Concentrados em
Porto Alegre - especialmente no Bom Fim -, vieram para cá fugindo da fome, da
discriminação e, a partir do final da década de trinta, da exterminação pura e
simples.
Fugindo da dominação de outros países, vieram os poloneses, que entre 1795 e o final da
Primeira Guerra Mundial não existiam como nação: tiveram sua pátria dividida entre a
Rússia, a Prússia e a Áustria. Assim, muitos desses imigrantes chegaram aqui sob outras
nacionalidades. Mas, com a teimosia dos povos que não perdem sua identidade, sempre
fizeram questão de frisar que eram poloneses - o povo da pátria retalhada.
Se a Primeira Guerra devolveu aos poloneses o direito de serem nação, a Segunda criou as
condições para que o Rio Grande recebesse um novo fluxo migratório. Dessa vez, vinham
de uma cultura totalmente diversa, tão diversa que provocava espanto inicialmente. Mas,
calados e trabalhadores, esses novos gaúchos de olhos puxados marcaram sua presença na
economia do estado: em 1956 começaram a chegar os japoneses.
Esses são alguns dos que vieram. Outros povos, outros sangues, também estão presentes,
embora em contingentes não tão significativos. Como se vê, não há um único Rio
Grande, mas muitos Rio Grandes. Só que, assim como as pessoas, que são diferentes ao
longo do dia, ao longo da vida, esse Rio Grande político, que é a soma de todos os Rio
Grandes concretos, existe como unidade.
SEGUE
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