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Negros
A história dos gaúchos sem história
Os negros entraram na história do Rio Grande do Sul desde seu início. Mas o fizeram como
personagens secundários, pouco lembrados, pouco citados - não obstante sua atuação
tenha sido, provavelmente, decisiva para a própria formação do estado. Porque para o
português branco, o negro era um complemento indispensável de sua atividade: na terra,
na casa, na luta, ele se assemelhava à argamassa que, escondida entre os tijolos,
mantinha a estrutura, mas que não era nunca levado em conta.
Não é à toa que em um texto escrito em 1807 por Manoel Antonio de Magalhães, em que
faz reflexões sobre a situação da capital do Rio Grande, os negros sejam equiparados,
literalmente, a equipamentos. O autor defende que deva ser proibida a exportação de
escravos do Brasil para as colônias espanholas, pois os escravos são de importância
militar "como os artigos de guerra: pólvora, balas, armas, chumbo, ferro, cobre,
aço, estanho, salitre e toda a sorte de massames náuticos".
Quando a bandeira de Raposo Tavares explorou os vales dos rios Taquari e Jacuí, no final
de 1635, existiam escravos negros entre seus membros. Também em 1680, na fundação da
Colônia de Sacramento, a expedição comandada por Manoel Lobo trazia escravos negros.
Eram 200 militares, três padres e 60 negros, dos quais 41 escravos do comandante, seis
mulheres índias e uma branca e índios. Os negros representavam, portanto, mais de 20% da
expedição - sem se considerar os soldados negros e mulatos livres que eram usados pelos
exércitos daquela época. Também as expedições posteriores que se dirigiram à
Colônia de Sacramento levavam mais negros.
Outro ponto fundamental para a história da ocupação do Rio Grande foi a fundação de
Laguna, em Santa Catarina. Afinal, de lá sairiam várias expedições destinadas primeiro
a prear gados, segundo a ocupar o Continente de São Pedro. E na fundação de Laguna
também o negro estava presente, bem como nas expedições que os lagunenses fizeram ao
Rio Grande, em que constituíam a maioria dos membros.
Mas foi a partir do desenvolvimento das charqueadas - que começa em 1780, com ocupação
da área de Pelotas - que o tráfico negreiro
começa a tomar volume. Naquele ano, os escravos - calculados em 3.280 - representavam 29%
da população total do Rio Grande do Sul, e se encontravam concentrados em duas áreas
principais. A primeira era ao longo da estrada dos tropeiros, que ligava o extremo sul do
Rio Grande ao resto do país, pelo roteiro Rio Grande-Mostardas-Porto
Alegre-Gravataí-Santo Antônio da Patrulha-Vacaria, ao longo do qual se localizavam as
maiores estâncias.
Nessa região estavam cerca de 65% dos escravos. A outra área de grande concentração
estava no eixo Porto Alegre-Caí-Taquari-São Jerônimo-Santo Amaro-Rio Pardo-Cachoeira,
ao longo do Jacuí, onde se concentravam 35% dos escravos, especialmente em São
Jerônimo.
Esses números seriam grandemente aumentados com as charqueadas, saltando para 50% da
população gaúcha em 1822, quando José Antonio Gonçalves Chaves, estancieiro e
charqueador de Pelotas, calculou que dos 106.196 habitantes da província metade fosse de
escravos.
Esses números talvez estivessem exagerados - afinal, Gonçalves Chaves era contra a
escravidão, e usou de todos os argumentos para combatê-la em sua obra "Memórias
Economo-políticas sobre a administração pública do Brasil". Um deles era
justamente o de que "o excessivo número de escravos faz com que não o possamos
tratar como temos obrigação". Mas, de qualquer forma, sabe-se atualmente que seu
número era expressivo, e calcula-se que em 1858 alcançava quase 25% da populaçào
RS VIRTUALnse.
No entanto, a história desse povo sem história tem de ser procurada em dois tipos de
fontes: ou nas notas que acompanham as narrativas, em que aparecem geralmente como "e
uma grande quantidade de homens negros", ou em alguns episódios mais marcantes -
que, por suas características singulares, são registrados. É esse o caso dos dois
corpos de lanceiros que participaram das tropas farroupilhas durante a Revolução, que
entraram para a história mais por terem sido vítimas de uma ainda não bem esclarecida
traição (na Batalha de Porongos), que fez com que fossem eliminados para não
comprometerem as negociações de paz entre farrapos e o Império.
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