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Espanhóis
Costumes e hábitos da fronteira
No Rio Grande do Sul não existe uma cidade que possa ser considerada espanhola. Nem mesmo
um bairro. E, se houver, serão poucas as famílias que, em casa, somente falam espanhol.
Ao contrário dos esforços feitos em outras etnias, não existe um trabalho de
recuperação e preservação das velhas tradições, procurando mantê-las vivas no
dia-a-dia das pessoas.
Para um estado que, no passado, teve suas terras pertencentes à Coroa da Espanha, restou,
portanto, muito pouca coisa intacta. Mas muita coisa, da indumentária às formas de
expressão que ainda prevalecem na fronteira, permaneceu com alterações - mesclada com
os costumes dos portugueses que avançaram "a ferro e fogo" para o sul, essa
cultura espanhola resultou em algo novo: no homem gaúcho, com uma cultura própria.
O gaúcho, segundo historiadores da fronteira, "é mais espanhol que
português". Em Santa Vitória do Palmar, por exemplo, alguns termos e formas de
expressão deixam isso muito claro. Situada nos antigos Campos Neutrais (que não
pertenceriam nem a Portugal e nem à Espanha) estabelecidos pelo Tratado de Santo
Ildefonso, de 1777 (mais informações),
Santa Vitória não conhece o pássaro joão-de-barro por esse nome mas como ornero.
O pardal é corrião. E não se diz "não o viste", mas não lo
viste.
Algo semelhante acontece em Livramento, como, de resto, em toda a
fronteira com o Uruguai. Ali, quando se vai a uma loja comprar um ferro elétrico pede-se
uma plancha. Esse verdadeiro dialeto da fronteira é tão forte, que as pessoas,
mesmo que se policiem, acabam utilizando termos regionais em sua comunicação habitual.
Mas, é claro, isso não se trata de espanhol.
O que é uma autêntica tradição espanhola é o velho costume que vem se mantendo no
tempo, de empinar pandorgas (papagaios) na sexta-feira santa. As pessoas saem
cedo de casa, com um farnel na mão e a pandorga pendurada nas costas, e seguem para os
cerros da região, longe dos fios que fazem a transmissão de energia, para dedicar-se ao
esporte.
Trata-se de um costume muito antigo. A prova de que se trata de uma tradição espanhola
foi obtida em Valencia, na Espanha, graças a pesquisa de historiadores da região,
segundo a qual o costume foi levado a Livramento pelos espanhóis que chegaram à cidade
através do porto de Montevidéu em algum momento do século passado.
Como em território uruguaio a ferrovia ia até Rivera (onde foi inaugurada em 1892),
espanhóis e italianos chegavam em grandes levas ao Brasil por esse caminho. Quando D.
Pedro II visitou Livramento em 1865, o Conde D'Eu registrou em diário que "de duas
mil almas, o elemento brasileiro não representa metade". Dentre os europeus,
informou ele, predominavam os italianos. Os próprios registros da Associação Comercial
da cidade indicam que, no final do século passado, a maior parte dos comerciantes locais
era composta por espanhóis e italianos.
SEGUE
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