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Os Muckers - Um episódio
de fanatismo religioso
O que acontece quando fanatismo religioso e intolerância governamental se defrontam? O
resultado foi mostrado, não há muito tempo, em um seriado de televisão sobre a Guerra
de Canudos: ignorantes e com menos poder, os fanáticos normalmente são dizimados. Essa
costuma ser a regra, repetida inúmeras vezes ao longo da história humana. E isso foi,
também, o que aconteceu no episódio dos Muckers, um capítulo triste da história
gaúcha.
Os muckers eram uma pequena comunidade de fanáticos religiosos que se formou no então
município de São Leopoldo atualmente no de Sapiranga na localidade situada
ao pé do morro Ferrabrás. Como todo o município de São Leopoldo, aquela era uma área
ocupada por imigrantes alemães católicos e protestantes, que haviam chegado ao Rio
Grande do Sul a partir de 1824.
Esse grupo de fanáticos era liderado por Jacobina Mentz Maurer que se julgava uma
reencarnação de Cristo e que prometia construir a "cidade de Deus" para seus
discípulos. Jacobina, desde criança, passava por "transes" e, quando nesse
estado, diagnosticava doenças.
Em 1866, se casou com João Maurer, e sua fama começou a crescer. Um grupo de adeptos
cada vez maior se reunia na casa do casal nos finais de semana. O movimento foi crescendo,
Jacobina foi proclamada "Cristo" e chegou a escolher seus apóstolos.
Os seguidores de Jacobina seguiam regras rígidas. Não bebiam, não fumavam, e não iam a
festas. Isso provocava uma certa resistência por parte dos demais colonos alemães -
resistência que se tornou maior quando os seus seguidores passaram a tirar as crianças
das escolas comunitárias.
Muckers x Spotters
Essa antipatia entre os colonos "normais" e os seguidores de Jacobina fica bem
expressa nos apelidos que respectivamente se deram: Mucker - falso religioso, santarrão -
era a maneira como eram chamados os "fiéis" da novo "Cristo". E
Spotter - debochadores - era como os seguidores de Jacobina chamavam seus adversários.
O clima de hostilidade entre os dois grupos foi se tornando cada vez mais intenso, até
que o chefe da polícia local resolveu prender Jacobina e seu marido. O presidente da
então Província do Rio Grande do Sul, entretanto, achou que houve precipitação - e
determinou que fossem soltos. Com isso, ganharam força os fanáticos, que se convenceram,
de vez, que Jacobina era mesmo o "Cristo". E os demais colonos acirraram seus
ânimos contra os Muckers, atribuindo a eles qualquer coisa que acontecesse de ruim ou
errado.
Como violência só gera violência, o clima ficava cada vez pior. Os muckers passaram a
atacar seus inimigos - a casa de um ex-mucker, Martinho Kassel, foi incendiada, causando a
morte de sua mulher e de seus filhos. Logo depois, incendiaram a casa de um comerciante,
Carlos Brenner, matando as suas crianças. E também atacaram mais duas lojas e duas
casas, chegando a executar um tio do marido de Jacobina, que não queria fazer parte da
seita.
Ataque militar
Após esses e outros episódios violentos, houve nova intervenção policial em 28 de
junho de 1874, quando 100 soldados cercaram o reduto dos muckers. Mas a luta foi um
vexame: com soldados mal treinados e sem nenhuma estratégia, o comandante do grupo,
coronel Genuíno Sampaio, viu seu grupo sofrer 39 baixas, enquanto os muckers tiveram
apenas 6 baixas. O confronto, mais uma vez, serviu apenas para fortalecer os muckers, pois
confirmava uma das "profecias" de Jacobina, que dizia que quem acreditasse nela
não morreria.
Menos de um mês depois, em 18 de julho, houve um segundo ataque, comandado pelo mesmo
coronel. Dessa vez, a casa foi incendiada, mas os muckers que lá se encotravam não se
entregaram - preferiram morrer, pois acreditavam nas palavras de Jacobina, que havia lhes
dito que iriam ressuscitar. Foram 16 os muckers mortos - mas Jacobina conseguiu escapar,
acompanhada de alguns de seus seguidores. E, durante a noite, um dos muckers,
provavelmente escondido no morro Ferrabrás, atingiu o coronel, que morreu no dia seguinte
devido a uma hemorragia.
Novo ataque aconteceu no dia 21 de junho, sem resultados - depois de duas horas de
confronto, os soldados se retiraram. A vitória só foi possível no dia 2 de agosto,
quando, conduzidos por Carlos Luppa, um mucker que havia decidido se entregar e trair seus
companheiros, os soldados puderam chegar até o reduto do morro Ferrabrás. Dessa vez,
Jacobina e os 16 seguidores que a acompanhavam foram mortos.
Os muckers sobreviventes tiveram que enfrentar duros momentos. Durante oito anos, foram
conduzidos de prisão em prisão, sem serem julgados. Finalmente, foram perdoados e
soltos, mas tiveram que agüentar a perseguição dos colonos alemães até o final de
suas vidas. (Por
Lígia Gomes Carneiro)
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