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Título : NEM MAIS UMA PALAVRA
Autor: JOÃO FELINTO NETO
Cidade: OUTRA CIDADE

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Page Views: 419
Publicação: 08/09/2013
 
ARMAS LETAIS Filho, volta cedo, O mundo está cheio De monstros reais. Nunca é demais, Precaução e zelo; Acho que esse anseio, Herdei de meus pais. Devagar rapaz, A pressa é atropelo, Haja com respeito Aos ideais alheios. Pense no que faz, Fuja de si mesmo, Ódio e preconceito São armas letais. Somos tão normais Quanto nossos erros. Mas ao cometê-los, Já não dará mais Para voltar atrás. SOMBRA DE UMA TRAIÇÃO Preciso esquecer essa mulher Que uma hora diz que quer E outra nem dá atenção. Preciso arrancar do coração, Esse amor que ainda é Sombra de uma traição. Não quero alimentar uma paixão Que me pede pra ter fé Mas só crê se convier Com a sua condição. Não pode sustentar-se a relação Onde alguém pede perdão Por aquilo que não é. ADEUS QUERIDA Amar é superar intrigas, Inverdades e querelas. É entregar-se sem reservas, Rejeitar as vis mentiras. Diante de acusações tão severas, Nada mais me restaria, Além de dar adeus a ela. APENAS UM VILÃO Você me elevou a Deus. Agora me supõe o Diabo. Nossa que macabro Tão extrema inversão! Sou apenas um vilão Que tem fama de culpado. O EQUILIBRISTA Eu não sou nenhum deus, Nem tampouco, um demônio. Sou apenas um mortal Que vive entre o bem e o mal, Se equilibrando. ALGUMA PROVA Será que ainda vivo? Preciso encontrar alguma prova. Sob palmos de uma cova, Não habito. Mas se é real o mito, A morte é suposta. Eu acho que ainda existo. Pois admito, Não saber a resposta. O VESTIDO AZUL Mesmo no distanciamento, Não me sai do pensamento, Ela em seu vestido azul. Nem as praias lá do sul Tem tamanho encantamento. Imagino quando o vento Faz com que o vestido azul Delimite suas curvas, Eu a vejo seminua, É maior meu sofrimento. Sei que tudo, com o tempo, Cai no escuro esquecimento. Mas o seu vestido azul, Guardarei em um baú Até o último momento. PELOS MEUS SAPATOS Sou estranhamente só Em um mundo povoado. Sou constantemente falho Entre tentativa e erro. Sou avesso Aos ternos engomados. Meus sapatos Mostram quanto desmantelo. Nunca me levanto cedo, Mesmo quando necessário. Meu escárnio É por quem tem prato cheio. Sou tão feio Quanto pintam o diabo. Sou levado À loucura e ao desespero. O COMEDIANTE Sou do tamanho que posso, Que não pode ser tão grande. Sou às vezes, num instante, Tão pequeno, tão remoto Que me sinto um gigante. Sou maior do que fui antes, Infinitamente escasso. Tão extremamente raro Quanto vasto e abundante. Sou gritante Quando calo. Sou silencioso e magro Quando gordo e falante. Sou um triste ocupante De um espaço ainda vago. Sou tão trágico Quando sou comediante. É O FIM Parece que realmente é o fim. A vida não foi tão ruim Quanto poderia ser. Despeço-me sem muito dizer, Foi bom a todos conhecer, Que digam o mesmo de mim. Eu sempre achei que fosse assim, Sem asas de anjo querubim, Sem um demônio a me aquecer. Meu corpo teima em viver, Minh’alma prestes a morrer, Ainda insiste em dizer sim. NOVAS IDEIAS A nova ideia É antiga e reinventada. Era tão ultrapassada Que se tornou moderna. Numa moldura estética, Uma réplica alinhada, Tanto tempo desusada Que parece ser inédita. Desconhece a própria ética Por conduta inadequada, Não por ser cópia pirata, Mas por ser originada De uma imagem abstrata Que havia em outra época. MINHA VERSÃO Eu não tenho a pretensão De dar as mãos A quem me ata os pés. Não estou entre os fiéis Membros da congregação. Nunca foi minha intenção Ir além de uma cova. Numa alcova, Ponho toda devoção. Não desejo ser irmão Por parte de um pai que é mito. E escrito por escrito, Eu prefiro e acredito Em minha própria versão. UMA OPINIÃO Acho que a felicidade é ilusão Tanto quanto o amor também seria. Essa euforia não seria alegria, Mas pura fantasia da emoção. E a fiel devoção a uma companhia, Não passa de ironia de nossa evolução. Enquanto a tristeza é depressão, O ódio é uma arma defensiva. Melhor colher a flor da fantasia Que espetar o amor e a alegria Com o espinho de uma opinião. O ÚNICO DA CASA Eu sou o único da casa Que não precisa de alma, Que não aceita doutrina. Enquanto estão todos na cozinha, Eu permaneço na sala. Talvez eu seja um fantasma, Enquanto a vida ainda é minha. A mãe se encontra sozinha, Sob uma cruz lapidada. O pai, às vezes, dá asas A sua fé repentina. A irmã mais velha se anima Com seus espíritos e carmas. A outra, a portas fechadas, Reza uma salve rainha. Um dos irmãos na esquina, Grita que o mundo se acaba. O outro, de casa em casa, Testemunha a própria sina. Todos permanecem ainda A procura de uma aura. Eu sou o único da casa Que não precisa de alma, Que não aceita doutrina. A VERDADE DO DIREITO Tudo é preconceito, O que vejo, o que sinto. Pra dizer a verdade do direito, Eu minto. NO ABRIGO O ancião olha ao seu redor, À procura de um membro da família. O abrigo parece uma ilha, Ele, um náufrago há muito tempo só. Quando noite, evita sentir dó De uma vida tão longa e tão vazia. Sua memória, às vezes, distorcida, Confundia o real com a fantasia. Consciente, ele sempre se inquiria: Qual dos dois seria o pior? DESCOMPROMETIDA E quando a porta se fecha Por mais uma noite, me deixa Sem dormir. Eu vejo você a sorrir Na cama ainda desfeita. Rejeita o pedido e me beija Dizendo que volta na terça Pra se divertir. Prefere viver sem mentir, Sem ter que ouvir minhas queixas. Melhor não desfazer gavetas Toda vez que sair. O sol mal começa a surgir, Você não me sai da cabeça, Não pede que eu a esqueça, Somente que a deixe partir. UM FIEL BOM E GENTIL Às vezes, eu me sinto tão vazio Que me dá um calafrio Como se a minha alma Reclamasse dessa farsa De um fiel bom e gentil. O meu maior desafio É fingir amar ao próximo Quando tenho nojo e ódio Num sintoma doentio. Demonstro um amor febril, A um deus que não me agrada. Vou ao culto e dou graça Com um fervor tão senil Que chego a crer que o ardil De toda a minha trapaça É um anjo que me fala Para ser crente e servil. SOB VIGILÂNCIA O homem se perde No raciocínio lógico de sua crença. Percebe a lenda Que não cura e não fere. Jamais se refere A ser supersticioso Com um passado mentiroso, Para não expor a pele. O homem não se esquece Que era sempre observado Por fantasmas, deuses e diabos. Eis que agora, se aborrece. Foi tão mal acostumado Que não quer ser libertado E com câmeras se persegue. EXPOSTO AO RIDÍCULO Falar de amor É se expor ao ridículo, Posto ser o romantismo Algo há muito ultrapassado. Hoje, o termo adequado É ficar, somente isso. Sem vínculo, sem compromisso, Sem flores e sem recados, Os beijos são decorados, Acabou-se o improviso. Ambos seriam submissos Se estivessem apaixonados. Ele e ela são levados A tornarem-se promíscuos Em um sexo sem o risco De acabarem-se casados. O TEÍSTA O que pretende o teísta Com sua fé desmedida? Sua ganância é explícita Até mesmo em salvar almas. Se não pode conquistá-las Com sua boca maldita, Arrogante, se excita Ao prazer de condená-las. MESMO QUE ESTEJA LÁ O que existe de fato Senão o que conhecemos? O que jamais percebemos E não ouvimos falar, Não existirá no tempo, Mesmo que esteja lá. MINHA INSENSIBILIDADE Meu coração não é tão vasto, Não há espaço pra piedade; Cabe amor, cabe saudade, Cabe uma pessoa só. Meu coração não é maior, Não cabe dó, nem caridade; Cabe paixão, cabe vontade, Cabe uma pessoa só. Meu coração é bem menor Que minha insensibilidade. PEGAR O TREM Não espero por ninguém, Nem também faço promessas. Por favor, nunca me peça Para não andar depressa, Não me sentiria bem. Devagar se vai além. Não caio nessa conversa. Venha logo, se despeça, Que eu vou pegar o trem. TENHA CALMA Não force a barra, Nem barre à força. Ao menos ouça O que se fala. Não feche a cara, Nem ria à toa. Qualquer pessoa Merece calma. PRA ACABAR COM A FOME ALHEIA Minha única tristeza É está por trás da mesa Comendo feito um glutão, Sem fazer nenhuma ação Pra acabar com a fome alheia. Minha barriga está cheia, Minha cara está feia, Em perigo, o coração E eu não gasto um tostão Pra acabar com a fome alheia. Ainda tem na sobremesa, Uma calórica guloseima, Por pura satisfação. E eu não movo uma mão, Não divido um só pão Pra acabar com a fome alheia. MERO SENTIMENTO Não é preciso ser eterno Para saber o quanto é certo Que o amor não dura para sempre. Basta viver e simplesmente Consigo mesmo, ser sincero. O amor, se jovem, é um inferno Pela paixão inconsequente. Com o tempo, torna-se paciente, Tão consciente de que é sério. Seja antigo ou moderno, O amor é mero sentimento Que não tem nada de mistério. ATÉ DE MADRUGADINHA Ouvi uma cantilena tão distante, Que pensei por um instante, Que era só impressão minha, Uma estranha e sinistra ladainha Qual o vento à tardinha No mirante. Senti na pele, um frio arrepiante E ainda hesitante Eu desci para a cozinha. Havia uma xícara quentinha De um café aconchegante. Dessa hora por diante, O silêncio foi reinante Até de madrugadinha. MUNDO REAL O meu mundo de pele, ossos, cabelos e vísceras Parece ser mais fantástico Do que esse mundo mágico Onde querubins alados Sobrevoam vidas míseras. COMO NUM RIACHO RASO Eu morrerei de abraços Com minha própria sorte. Não por que seja forte, Nem por que seja bravo; Mas por saber de fato Que um dia a gente morre E que a vida se escorre Como num riacho raso, Um peixe que por acaso, A uma isca morde; Enquanto um ovo eclode Tão próximo, à sua margem. LUZ E MAGIA Quando vejo você, Principia o nascer De um novo dia, É tão grande a alegria Que acho que vou morrer. Não morrer realmente, Mas como a fantasia De que ainda haveria Um lugar diferente Pra que eternamente, Nós pudéssemos viver. Quando vejo você, Vejo luza e magia. QUANDO MORTA Quando estiver morta, Já não mais importa Onde você esteja, Se numa igreja Ou na zona, exposta. SORRISO PÁLIDO Vivo da saciedade Das vontades e dos vícios. Sou submisso À realidade Na qual vivo. Sou tão omisso Quanto a sociedade Que me põe sempre à margem Dos seus riscos. Assim, revido Com um sorriso Pálido como minha própria imagem. NA ILUSÃO DE LIBERDADE Eu fugi de casa Num bater de asas, Na ilusão de liberdade. Presa da necessidade, Não passo de escrava De uma vida apática E de infidelidade. Hoje, o peso da idade E a responsabilidade Não me permitem voar. Sou um mero exemplar De uma coleção selada. Sou uma mulher casada Que tem medo de arriscar. APÓS ANOS DE PRISÃO Corro de mãos dadas com minha mãe, De pés descalços Para os braços De meu pai Que hoje sai, Após anos de prisão. Ele, tão estranho à emoção, Não atende ao meu apelo, Não é o mesmo Que encontrava no portão. Tem a cicatriz e o cordão Por sobre o peito, Mas tão sem jeito, Ele beija a minha mão, Que sua bênção Mais parece um aperto, Um acordo a pouco feito, Uma negociação. O INFERNO EXISTE Uma coisa é certa, O inferno existe, É viver na miséria, Onde a fome exagera, Depois desiste. Fica um olhar triste E a morte a espera. SONETO DO FIM PRÓXIMO Devo dizer adeus Ou apenas até logo? Meu amor, eu já não choro, Nem imploro por um deus. Todos os sonhos são meus Por serem seus, os remorsos. Eu finjo que me esforço, E você, que me perdeu. Tudo que se prometeu Não passou de um negócio Onde um dos sócios, fui eu. Todo o mundo percebeu Que o fim estava próximo E o óbvio aconteceu. ARTESANATO Olho os objetos dispersos na prateleira. Foram esculpidos na madeira, Retocados com fino verniz. Vejo o artesão sorri feliz Com ar de tristeza, Por ter certeza Que o cliente não os quis. VAI ALÉM Sabe que vai morrer E/ou matar alguém, Mesmo assim, teima em beber E a dirigir também. A lei finge que está bem E ele nem tenta entender. O direito de viver Na verdade não se tem. O interesse é de quem? De ninguém. É o que se ver. Seja eu, ele ou você, Nada vai acontecer Se atropelarmos alguém. Ao escapar, diz amém Por não ter que responder Pela morte de outrem. E impune vai além, Pois ainda insiste dizer: Tinha de acontecer, Não é culpa de ninguém. INSÍPIDAS PALAVRAS Na reclusão do meu silêncio, Eu desabafo minhas mágoas. Não entre lágrimas, Mas escrevendo As mais insípidas palavras. A minha voz não é amarga E jamais fala: Estou morrendo. Mesmo coberta de veneno, Ela se cala. NO ESPELHO DOS REMORSOS Eu desconheço o meu ódio E desvaneço em meu medo. A minha trama é enredo Do desapego e do ócio. Eu sempre faço o que posso Para rever com acertos, O reflexo dos meus erros No espelho dos remorsos. E cada dia, me esforço Para manter meus segredos Que são os mesmos que vejo Ocultos aos rostos alheios, Dentro de seus próprios olhos. ACOSTUMADO A SONHAR Estou tão acostumado a sonhar Que a realidade me parece fantasia, Onde as horas que deveriam ser vazias São preenchidas com o meu pestanejar. Os meus olhos se acostumam devagar, Com o sol que faz raiar o novo dia, Onde os sonhos se misturam à própria vida, Onde a vida não me deixa acordar. LÍDER SANTO O líder santo se faz Entre sinais e bandeiras. O líder santo se esgueira Entre a guerra e a paz. Por ser covarde demais, Ele se deixa Viver a vida inteira Sobre a morte dos demais. ERUPÇÃO Tenho a impressão maravilhosa, Que o mundo se acorda Com o meu jocoso grito, Um vulcão há muito tempo adormecido Que acorda numa ejaculação. Larvas que fecundam um coração, Se espalham em sua fenda, um precipício. De joelhos, sou um homem submisso, Um fiel em sua extrema devoção, Com os olhos que pedem por perdão Pela falsa ilusão de ter sofrido. SONETO REPRIMIDO Meu entusiasmo pela vida É uma típica inversão de sentimentos, Ante os severos pensamentos De uma mente fraca e deprimida. Tenho a razão comprometida Por ser desprovida de bom senso. Com o meu sorriso, eu compenso Toda a amargura reprimida. Falo pouco, pela voz contida. Não entenderiam meus tormentos, Nem aceitariam minhas cismas. Minhas intenções são percebidas Pelas alegrias de momentos E as tristezas introspectivas. O AMOR DE MINHA VIDA O seu ciúme me envaidece, Ao mesmo tempo, me enlouquece Por sua boca contorcida. A sua cara enfurecida Por essa raiva que expele, Tanto me fere Como a deixa entristecida. Talvez, por se sentir traída, Se afastar de mim, prefere. Mas, sinto falta de sua pele E peço que não se exaspere, Você é o amor de minha vida. ENCENAÇÃO Eu poderia desenhar-te com palavras. Em poucas falas, Deslumbrar-me com a visão. Tanta paixão Em cada estrofe declamada Que em meio às lágrimas, Encerraria a encenação. A CÉU ABERTO Na solidão me despeço. Não há regresso aonde vou. Meu voo é a céu aberto, Sobre um deserto sem cor. Tão certo disso estou, Que no calor me disperso, Incerto, ao dissabor Do vento, ao tempo me entrego, Como me entrego ao amor. A TIMIDEZ DOS SEUS REMORSOS Pobres os meus olhos Que se perdem ansiosos À procura de revê-la E que são presas Dos seus olhos receosos. Os seus lábios grossos, Minha boca ainda deseja, Enquanto aceita A timidez dos seus remorsos. Na ilusão que posso Esquecê-la, Fecho os meus olhos, E você me beija. UM BEIJO APENAS Eu estava com você em um cinema. Em uma cena, Apertei a sua mão. Quanta emoção Dispersada em luz serena. Um beijo apenas, Nos tirou da escuridão. TRADIÇÃO Devo negar a minha convicção Desde a concepção Até o altar? Nasci num lar, Onde a única obrigação Era uma tradição: Somente amar. MIRAGEM O sonho nasce na vontade Que o desejo se torne real. Sendo tal qual Uma miragem, Onde a necessidade Cria uma imagem Irreal. A AMANTE PERFEITA Eu a vejo tão linda, E mais ainda, Eu a vejo perfeita. Seu sorriso me aceita. Com as mãos, me aninha. Você não é só minha, Mas sozinha, Me abraça e me beija. Você também deseja, Mais que minha eleita, Ser a minha rainha. INVENÇÃO Vivo repetindo a mesma história Pela falta de memória Ou por reafirmação. Talvez, seja simples ilusão De uma mente que explora Sua própria imaginação. Repetir-se é minha intenção, Chamar a atenção De quem me esnoba. Personagem vivo que outrora, Foi suposta Invenção. ELA É UM ANJO MALVADO Ela me quer o quanto a quero. Sempre a espero com euforia. Tanta magia quanto mistério. Amor eterno, ela diria. Me salvaria do meu inferno. A céu aberto, me guiaria. Tanto faria o que é certo, Quanto decerto, me condenaria. OS DIAS DE HOJE Como antigamente, Os dias de hoje, não são tão diferentes. Tem pressa, são urgentes, E de pouca atenção. A mesma ilusão De que são para sempre. Tão displicentes À sua própria condição, Os dias de hoje são Continuadamente, A nossa representação. A NOSSA HISTÓRIA Tenho que ir agora, minha senhora, Antes que alguém me veja. Enquanto a gente se beija e se deseja, Seu consorte está lá fora. Eu sei que ao ir embora, Só nos restará tristeza. Porém, pode ter certeza Que temos a vida inteira Pra viver a nossa história. ENTREGUES AO ARDOR DA PAIXÃO Lábios se comprimem ansiosos de desejo. Turbilhão de medo e de receio. Cada coração em si inteiro. O amor verdadeiro, Não requer condição. Apertam-se as mãos, Comprimem-se os seios. Abraços e beijos, Tanta emoção. Nunca se diz não Aos seus apelos. Entregues, alheios, Ao ardor da paixão. RECOMPENSADO Sinto tanto a sua falta Que chego a me aborrecer. Como poderei viver Sem ter você ao meu lado? Sendo tolo, abandonado, Sem legado, sem prazer, Ainda insisto em lhe ver, Sou enfim, recompensado. Você não será passado, Meu futuro esperado, No presente, acontecer. ADMIRAÇÃO Vejo em cada gesto seu, consentimento. Chego a ler seu pensamento Me pedindo atenção. Quando toco em sua mão, Acredito estar vendo Seu mais íntimo sentimento, Sua admiração. DESCULPA DESCABIDA Chega de acreditar que a vida Ainda pode ser melhor que isso, Folga ou compromisso, Descanso ou lida. Pode ser uma dádiva merecida, Pode ser o mais cruel castigo, Nós só precisamos de um motivo Para uma desculpa descabida. A FUMAÇA Vejo a redenção de minha alma, Não em orações diárias, Mas no livre pensamento. Só há tormento Numa mente alienada. Não alcanço graça Por merecimento. O meu alento É trabalhar pra ter a cota necessária. Pedir migalhas Com o mero fingimento De que vale o esquecimento Da quantidade desejada É uma farsa Ao seu arrependimento. Não perco tempo Em anunciar desgraça. Não vejo graça Em infligir sofrimento. Espero o vento Dissipar essa fumaça Que os afasta Da razão e do bom senso. COLCHÃO DE MOLA Só a você eu digo O que sinto agora. Só você transforma O meu choro em riso. Qual seguro abrigo Que a um mendigo Aquece e acomoda, Você me conforta E me põe tranquilo. Corpo adormecido Num colchão de mola. A mão suave toca O filho protegido Que surpreendido, Assustado, acorda. O PODER DA VONTADE Você fala da morte Como quem quer morrer. Parece ter prazer Em desejar tal sorte. Não se sente tão forte Para sobreviver, Mas consegue vencer Toda a dor que o comove. Você sempre resolve O que deve fazer. Na hora de se erguer, Você nega que pode. Não demonstra que sofre, Apesar de doer. Desconhece o poder Que a vontade promove. VERDES ANOS Eu me assombro Quando vejo os escombros De minha velha cidade. Sinto tanta saudade Que vivencio a idade Que tinha em meus verdes anos. Jamais fazíamos planos, Pura impetuosidade. Alegria e liberdade, Frutos de um fim de ano. Não me perguntava quando, Nem qual a necessidade. Percebia a mocidade Que vinha se aproximando. De repente, fui raspando Do rosto, a ingenuidade. Era a minha puberdade, Explodiam os hormônios. Entre êxtase e desânimo, Chego à maioridade. Pouco mudo, na verdade, Mas vou me encontrando. Eis que chega o matrimônio. Depois, a natalidade. Vejo a realidade, De uma forma que me espanto. Ante meus cabelos brancos E o peso da idade, Reconheço que saudade É o maior dos desenganos. IMERECIDA Faço parte de tua vida, Sem poder te alcançar. Serei lágrima esquecida Que apesar de imerecida, O tempo irá enxugar. A MEROS ANIMAIS Deveríamos amar mais E desejarmos menos. Mas, o mundo em que vivemos Nos desfaz Os próprios sentimentos, Nos torna mais carnais, Venais e violentos. Soberbos racionais Que estão perdendo O seu discernimento, Regressam pelo tempo, A meros animais. A IMAGEM Às vezes, tenho vontade De lhe dizer quem eu sou: Um homem de meia idade Que ainda arde De amor, Que esquece o valor Da amizade, Que vê na liberdade, Ausência de pudor. Entregue ao torpor Da sacanagem, Se esconde na imagem De um simples professor. NOS BEIJOS DE MINHA AMADA Sinto que nada me falta Nos beijos de minha amada, Sonho, mágica e fantasia. Mas a realidade fria, Na razão do dia a dia, Cruelmente nos afasta. MULHER DEVASSA Eu comparo minha vida A uma mulher devassa Que fingida, me abraça. Excitada e despida, Tão alheia, entretida Com o próprio pensamento, Logo após o pagamento, Não há sequer despedida. Parece desprotegida, Mas é puro fingimento. Tão seca de sentimento, Transborda de tirania. Seja noite, seja dia, Não importa o momento, Prova que há ressentimento Ao causar-me sofrimento Oculto em sua alegria. ÚNICA CHANCE Não se importe se o seu sangue É de seu pai com sua mãe Ou mesmo de um rosto sem nome Com uma puta que ainda se expõe. Sua educação compõe, Junto ao seu sobrenome, Um caráter de bom homem Que a origem não impõe. Só sua família repõe A segurança que some Com o abandono que come Toda sua conformação. E somente a adoção É sua única chance De não morrer como infame Na tristeza e solidão. QUINQUILHARIAS Entre quinquilharias, Reavivo alegrias do passado. Um menino levado, Que é deixado à mercê da fantasia. Entre suas manias, Um lençol desbotado Que a um pequeno cenário, encobria. Uma gaiola vazia, Onde um dia, cantara um canário. Um boneco, um soldado, De lutar, já cansado, jazia. Um cordão se estendia Pelo chão empoeirado, Onde um pião quebrado, Já não mais rodopia. A BÊNÇÃO Uma bênção com a mão Que esvazia o meu bolso. Com enorme alvoroço, Benzia-me, um ladrão. Com alarde e comoção, Repetia: Deus eu ouço, O que pedes a esse moço, É pra sua salvação. Ao chamar-me de irmão, Fitava o meu desgosto Sem fazer nenhum esforço Pra ocultar sua intenção. Exigindo devoção E extrema adoração, Mais parecia um louco, Enquanto extorquia o pouco Que restava para o pão. O SOLTEIRO Eu aprendi a andar Sem rumo e sem compromisso. E vai ser muito difícil Se eu tiver que mudar. Como irei me acostumar A ser marido, Um solteiro envaidecido Por jamais se apaixonar? MULHER DE PODER Procuro seguir em frente, Continuar a minha vida. Mas não vejo uma saída Com você estando ausente. Eu me sinto indiferente Ao mundo que me cerca. Esse mal que me infecta É o amor que também sente. Você age diferente, É constante e segura. Eu sofrendo a amargura De um louco inconsequente. Sei que guardarei para sempre O seu rosto sorridente, O gosto que está presente No hálito de sua boca. Ouvirei sua voz rouca Me chamando sensualmente. Sentirei seu corpo quente, Seu perfume eternamente Exalar de minha roupa. CEGOS DE AMOR Não tenho olhos pra ninguém, Pois estou cego por você. Fecho os meus olhos e consigo ver Seu rosto, a me olhar também. Sei que lhe quero tanto bem Que sou capaz de compreender Que é impossível ter você, Posto viver com outro alguém. É doloroso seu desdém, Divide a vida com você E não consegue perceber A imensa dádiva que tem. O meu conforto é que ninguém Pode mandar no bem querer. Em nosso amor, eu e você, Mesmo que não possamos ver, Iremos muito mais além. MERA GRATIDÃO Onde estão o ardor e a paixão De tão duradoura relação? Foram levados pelo tempo. E todo aquele encantamento, Tornou-se mera gratidão. Somos escravos da união, Do casamento. Fizemos falso juramento Sob os dogmas da mistificação. Ante o calor da emoção Do festejado momento, Caímos no esquecimento De que amar é um sentimento E não depende da razão. SONETO AO AMOR TARDIO Ver você é uma dádiva da vida, Uma gota merecida de silêncio, Uma brisa em um dia de mal tempo, O reconhecimento que há forças atrativas. Sua pele exala o cheiro de orquídeas Que dispersa todo o meu ressentimento. Seu sorriso é o mais doce passatempo Que acalenta minha noite mal dormida. Sua voz é tal uma canção antiga Que exalta o amor sem fingimento, Sem apelo ao exagero e à malícia. Sua boca é uma masmorra de delícias, Onde eu perdi o meu discernimento E entreguei-me como à morte, o suicida. OBSTINAÇÃO DE CONDENADO Tenho a obstinação de condenado Pra fugir de minha cela, Mesmo que incerta, Minha fuga da prisão. Tenho sempre a sensação Que minha meta É a correta, É a única salvação. Minha pretensão, Se descoberta, Que não impeça Minha própria execução. O CONSELHO DO SOBRADO Nos degraus, eu pareço cansado Por está submisso ao sobrado Que me deixa isolado em meu mundo. Nas paredes do quarto, o meu túmulo, Um sarcófago imundo e macabro. Não consigo alcançar o telhado Que me olha de um jeito amargo E profundo, Como ousasse falar: Vagabundo, Vai à rua procurar trabalho, Vê se deixa essa vida sem rumo. CONFUSA Minha cabeça é confusa. Mas não tem culpa, É sadia. Quase nunca está vazia. Quando cheia, se exulta. Se fundir a minha cuca, Não vai ser por teimosia, Porém, pura rebeldia De uma mente obtusa. Se uma falha a acusa, Talvez seja apatia. A si mesma, elogia, Se gabando de astuta. É em si, tão resoluta Que se torna absoluta Em sua própria fantasia. ESCONDIDO O amor em nós escondido É um misto de risco e pesar. E por mais que tentemos feri-lo, Ele teima em se recuperar. ANTE O PASSAR DOS ANOS Quando nos apaixonamos, Eu dizia: eu te amo, Toda hora, todo dia. Nossa casa se enchia De eu te amo. Mas o tempo foi passando, O eu te amo sussurrando, Pouco a pouco mal se ouvia. O que a gente não sabia Era que se calaria Ante o passar dos anos. Não por nossos desenganos, Nem pela monotonia. Mas por simples agonia, Silencia, Sem que nós nos percebamos. SONETO AO AMOR ILEGÍTIMO Espero que você nunca me esqueça, Mesmo que tudo pareça acabado. A vida pode ter nos reservado A mais lúgubre surpresa. No escuro, uma única chama acesa, Pode nos guiar ao claro. Não deixe nosso amor para o passado, À mercê de sua própria natureza. Um sentimento filho da incerteza, Concebido ao acaso, Destinado à tristeza, Na sua condição de estranheza, De ilegítimo, é condenado A ser sacrificado pela mesma. ANTES DO NOVO ALVORECER A noite vem, Tudo parece adormecer. Procuro ver Além do sono e do sonhar. Tento encontrar, Antes do novo alvorecer, Não só você Que é todo o meu bem querer, A paz de ser, Meu existir e me encantar. JANELAS ABERTAS Abro as janelas E olho a rua, a espera De todas elas: A clara, a brisa e a bela. O sol desperta, Sua claridade me embriaga. O vento afaga Suavemente, a minha testa. É primavera, Vejo a beleza que se espalha. Orvalho, lágrimas De uma noite sem reservas. Você se entrega E diz que está apaixonada. Então, se cala. Aí meu silêncio me revela. Ficam as janelas Ainda abertas, Boquiabertas e encantadas. O CAJUEIRO O cajueiro se movimenta Com o vento que inventa Que ele é capaz de andar E que pode até falar. A ventania que aumenta, Como uma voz rouca, agourenta, Tenta Inutilmente me assombrar. Folhas, galhos e o ar, Uma orquestra barulhenta Que à minha mente, atenta, E me faz imaginar. ARROGÂNCIA Bater no peito para arrotar a minha arrogância, Mede a distância Que há entre eu e você. Se não tenho nada a oferecer, Nem amor, nem piedade, nem esperança, Mostra que além de minha infância, Perdi as únicas razões de se viver. Amargo minhas horas de prazer Na solidão de sombrias lembranças. Desconheço minha própria ignorância. Com relutância, Continuo sem me ver. BIS Quero saber a verdade Em troca da minha vontade De um dia ser feliz. Se você não é quem diz, Use de sinceridade. Com lealdade, Ainda poderá ter bis. ENTRE CHIPS MODERNOS Nossos corpos querem sempre estar Um no outro. É tão pouco Que é difícil aceitar. Mas o amor tende a contornar Obstáculos diversos. Sendo assim, entre chips modernos, Pela voz, nosso amor é eterno, E ninguém pode nos separar. AS RUAS As ruas são tomadas Por passadas ligeiras Que de qualquer maneira Querem chegar em casa. Há tantas ruas largas Quanto há também estreitas; Umas escuras, feias, Outras iluminadas. São muitas as paradas, Calçadas e bueiras. Cruzam a cidade inteira, Compelem à caminhada. Ouvem as nossas falas Em vozes passageiras, Dispersas na poeira, Dormem silenciadas. O VERDADEIRO DOM DA RAZÃO Sustento em minhas mãos, Todo o meu peso, Dependurado em minha própria opinião. E tenho a sensação ante o espelho, De que balança em meus cabelos, O verdadeiro dom da razão. NO CORAÇÃO DE MEU PRÓXIMO Todas as vezes que eu choro, Lembro que há um caminho, Que não estamos sozinhos, Paro, e enxugo meus olhos. Sei que se luto, eu posso. Sou livre tal passarinho E busco meu próprio ninho No coração de meu próximo. Se for difícil, me esforço. Meu argumento é o carinho. Meu contratempo, o remorso. ENTRE A CURA E A FERIDA Paciência e teimosia Me arrastam noite e dia, A manter o nosso amor. Não consigo mais me opor, Nem manter a rebeldia. Estou preso entre fantasia e dor. Que enorme dissabor Tem minha vida, Continua dividida Entre a cura e a ferida, Condoída Com seu próprio estertor. OS MEUS MOTIVOS Devo esclarecer os meus motivos, Não por alívio, Tão somente alegação. Sustento sempre a mesma opinião, Nunca duvido de minha convicção. LAMENTO Ela vai me esquecer Com o passar do tempo, Qual um leve movimento Que acabamos de fazer. Ela nem vai perceber Que já não está sofrendo. E só lamento Não estar aqui pra ver. O DIA DE AMANHÃ Espero o dia de amanhã com tanta ânsia Que a minha mão quase alcança o tocar. Eu não me canso de esperar, Qual a criança Que tem a tola esperança De que papai-noel virá. Eu tenho tanto pra lhe dar Que a espera não me cansa. A trago presa na lembrança, Que sou capaz de a inventar. Em meio à solidão que há Pela distância, Aperta o nó da insegurança, A sufocar. ALÉM DE MINHA JANELA O que há lá fora, além de minha janela, Um mundo vivo à espera De um iminente cataclismo Num exagerado fatalismo De quem o despreza Ou apenas o planeta terra Com todo o evolucionismo? Cá dentro, apenas o poeta Em seu insondável abismo. O MILHARAL Para que conspiração e ilusão, Mistificação do bem, do mal, Se o mundo é tão real Em sua própria dimensão? Já que o sobrenatural Não nos dar explicação, Formulemos a questão No contexto natural. Se não achamos normal, Questionamos a razão, Damos nossa opinião De uma maneira tal Que o ideal, Fruto da imaginação, Não nos prova um só grão Desse enorme milharal. AMARGA REALIDADE O que eu procuro na verdade, É uma mentira confortante. Contudo, encontro a todo instante, A mais amarga realidade. Em troca de afabilidade, Uma brutalidade incessante. Abro os meus olhos, confiante, Enxergo desonestidade. Onde eu planto liberdade, Brota num ramo dominante, Uma enorme flor de sujidade. Diante da vulgaridade De tudo o quanto é importante, Ainda mantenho a integridade. PERTINAZ PECADOR Eu era um menino levado Que acreditava em pecado E temia o Senhor Mais do que o próprio diabo. Satã era o servo macabro, Um cão com enorme furor. Mas para seu dissabor, Era por deus controlado. Ninguém pode ser tocado Sem ordens do salvador. Era grande o meu pavor, Quando ouvia tal ditado. Por ser insubordinado, Antevia o resultado: Satanás acorrentado, Sendo por deus libertado Para punir o culpado, Eu, um pertinaz pecador. PONTO CRÍTICO Entre métricas, me perco pensativo. Ponto crítico, a escolha da palavra. Voo sem asa, a procura de abrigo. Sou cativo de uma forma abstrata. Minha alma não revela meu conflito. Mesmo aflito, ainda simulo que há calma. Quando a palma absorve o meu grito, Não êxito, e a mão num rito, grafa. Nunca passa a ilusão de infinito. É um mito a sentença acertada. Onde a lágrima espelha o sorriso, Só nos resta o delírio Como a última cartada. RAPOSA EM GALINHEIRO Afeito aos malfeitos e defeitos, Assim, me deito para dormir, Sem nada que possa intervir. Essa é a visão do eleito. Se for para seu proveito, Tem direito de extorquir. A lei não pode punir Tão honesto e bom sujeito. O que o eleitor tem feito, A não ser se repetir, Pondo raposa em galinheiro? Para o povo brasileiro, Resta por para assumir, Um cachorro insatisfeito. UM FELIZARDO Quando ainda era um garoto, Não olhei para os dois lados, Quase fui atropelado, Talvez, estivesse morto. Observo o próprio rosto No espelho emoldurado. Vejo o quanto estou mudado, O passado é meu conforto. Permaneço absorto No evento do acaso, Quantas vezes fui poupado!? Tendo a morte, me deixado À mercê do mundo torto, Eu me sinto um felizardo. O RELOJOEIRO Não tenho tempo, E nem tento Encontrar tempo pro ócio. Eu faço tudo que posso, Para ocupar meu talento Que até esse momento, É consertar meus relógios. NÃO SOU O MELHOR EXEMPLAR Não posso me queixar da vida. Pois tenho casa, tenho comida, Tenho um salário que me obriga No dia a dia, a trabalhar. Não sou o melhor exemplar, Apesar, de não dever nada à justiça. Não creio em Deus, não vou à missa, Não faço parte de torcida, Não tenho o gosto popular. Não tenho o hábito de fumar. Também não consumo bebida. Jogar, nem mesmo uma partida. E ir a festas, nem pensar. Não sou afeito a chorar, Nem mesmo em trágica despedida; Pois tudo aquilo que me intriga, Eu tento racionalizar. VEREDA MACABRA Ando numa estrada sombria, Onde há árvores desfolhadas E o sol por entre galhas, Mal consegue clareá-la, E servir-me como guia. Essa dor, essa agonia, Essa vereda macabra, Não devolve minha amada, Nem a demove das mágoas Que me arrojam nessa via. Ah, amor, que bom seria, Eu nessa senda, encontrá-la! Acalmaria a minh’alma Com as mais doces palavras Que sua boca me diria. Eis que a realidade fria É a trilha solitária, Onde a noite é assombrada Pela parca escaveirada Que acicata o suicida. LEMBRANÇAS APAGADAS A cada dia que passa, Se vai um pouco de mim. E quando chegar meu fim, A vida feito fumaça Dispersada pelo vento, Vai se perder pelo tempo, Em lembranças apagadas. Minha lápide empoeirada, Relegada ao relento, Mostrará o desprendimento Com a minha mortuária. DE UMA FORMA OU DE OUTRA Aos que me pedem silêncio, De uma forma ou de outra, Eu calo a minha boca, Mas continuo tecendo Ideias que vou moendo Em minha cabeça louca. Mesmo a voz ficando rouca, Conversar me entusiasma. Quando todos dizem basta, Nem mais uma só palavra, Acho que a palra foi pouca. Eis que a letra me acoita. Então, prossigo escrevendo. Dessa forma, vou mantendo Um colóquio envolvendo Uma única pessoa. LUZ DO SOL NASCENTE Desejo vê-la novamente Como a luz do sol nascente A iluminar meu dia, A encher-me de ousadia E de atos imprudentes. Os seus beijos são urgentes E essa pressa me alicia. Sua voz serve de guia Ao meu coração descrente. Amo tão perdidamente Que daria a minha vida Para tê-la inibida Por despir-se em minha frente. Sonho com seu colo ardente Com tamanha impudicícia Que me acanha a malícia De sonhar tão vulgarmente. ENLACE AMOROSO Como foi maravilhoso Vê-la de pé no portão Com a mais linda expressão Que só vejo em seu rosto. Seu sorriso afetuoso, Foi uma confirmação De que a sua paixão É o meu maior conforto. Nosso enlace amoroso Defronta a proibição Com medo de ser exposto. Meu amor, ainda sofro Com essa separação Que impomos um ao outro. O FALCÃO E A FADA Amo você. Isso me basta. Seu amor me dá as asas Alinhadas de um falcão. Com afinco e exatidão, Eu vou à caça, Sobrevoo a sua casa Com extrema prontidão. Você me estende a mão, O meu coração dispara, Eu revelo minhas garras E pouso com exultação. Tanta paixão Entre um falcão e uma fada, Acaba em lágrimas, A espera de uma mágica Transformação. EU, BEIJA-FLOR Como é bom beijar-lhe, amor, Num longo e terno abraço. Um aperto, um nó, um laço Que amarra a minha dor. Vulnerável em sua flor, Tão entregue ao cansaço, Alheado, no espaço, Cai por terra, eu, beija-flor. Minha pluma aviva a cor Quando novamente avoaço E pairo ante o seu albor. Sem temer o empalhador, Eu procuro o seu regaço, Com agraço e ardor. AMOR COBIÇADO Nesse mundo tudo é mitificado. Sua boca tem o hálito perfumado da manhã, Sua voz é como o sopro de um titã, E eu, apenas mais um grego extasiado. Os seus olhos tem a fome do pecado. Os seus lábios tem o gosto da maçã Que a Eva recebeu do anjo satã, E eu, um ávido judeu apaixonado. Sou somente um nativo enciumado Aos pés de minha deidade pagã, Seduzido pelo místico talismã, Sacrifico-me no afã De teu amor cobiçado. UMECTADA Se estou em seu sonho sensual E acorda umectada, Não se sinta envergonhada, É uma ação consensual. Não há nada de imoral Em ser amada De uma forma tão velada E virginal. QUADRAGENÁRIO Que dia mais estranho. Talvez por ser mais um ano sobre meus ombros, O mesmo que antanho ansiava com exultação, Não passa de um vão em meu âmago. Não tenho ânimo para comemoração. Em cada aperto de mão, sinto-me anônimo, Um tragicômico sem nenhuma pretensão. Sob a felicitação, não me acanho Por ser tacanho, esse dia de ilusão. Sendo mera tradição de um breve sonho, Não me disponho a servir-me de atenção. OLHOS DE SUTIL CASTANHO Os teus olhos me pedem tanto O quanto eu não posso dar. Eles teimam em me chamar E eu parado, não respondo. Olhos de sutil castanho, Que me arrastam para um mar Onde afogam meu pesar, Minha sofreguidão de quando Poderei me entregar A tão inacessível sonho. LAÇO FAMILIAR Meu laço familiar Prende-me com tanto ardor Que nem mesmo seu amor Consegue me libertar. Não consegue abdicar, Esse velho coração, Da tamanha devoção Pelo seu lar, doce lar. Se você não pode entrar E eu não consigo sair, Como poderei sorrir Se não paro de chorar? A REALIDADE É OUTRA Vê a minha turgidez Ao despir a sua roupa. Pouco a pouco, se afoita Ante a nossa avidez. Em um tom de languidez, Sua voz rouca, Novamente me acoita Nessa doce embriaguez. Foi-se a tarde em palidez. O vento açoita O telhado que enoita Sobre minha tepidez. Amanheço à procura de sua boca, Tenho uma vontade louca De beijá-la outra vez. O sonho se desfez, Nossa cópula foi pouca. A realidade é outra Sem a sua candidez. SONETO À PEQUENA VITÓRIA Tanta pureza iluminada ao seu sorriso Num improviso de palavras mal faladas. Desprende o choro sem o mínimo motivo, Em soluços sem ter lágrimas. Os seus passinhos que se perdem pela casa, Deixam pra trás os mimos de minha anuência. Em cada gesto, soa desobediência. Com resistência, aos poucos cede e se acalma. Abandonado à mercê do alheamento, Voo sem asas, através de seus momentos, Livre do tempo das horas cronometradas. Tão encantado, digo o que estou vivendo. Na ilusão de que está compreendendo, Com as mãos na boca, solta lindas gargalhadas. SORUMBÁTICO Ante o cárcere que é esse amor desesperado, Sou devotado ao silêncio e a dor. Tento me opor, Contudo, permaneço apático, Tão sorumbático Quanto o próprio dissabor. Resignado ao desejo opressor De um coração pacóvio e alucinado, Aceito ser escravizado por temor De ver meu sonho proditor Ser dissipado E eu deixado à mercê do desamor. Entre o motejo de um escarnecedor E o torpor de ter um vício abandonado, Prefiro ser subjugado a esse amor. ALÉM DO HORIZONTE Procuro além do horizonte. Talvez, a encontre Ou apenas me equivoque. Estendo a mão em busca de um leve toque Imaginário, inefável, inebriante. Quem sabe assim, o horizonte lhe devolve. Se porventura, sob a palidez do céu, explore A vastidão do proceloso mar distante, Desfeito em lágrimas que ainda me comovem, Mas não demovem a dor desse instante, E nada encontre Além da mesma sorte Que tem suporte, os sonhos dos amantes, Saberei antes, muito antes, Que encontrei enfim, a própria morte. A VIÚVA MÁ E na janela um rosto me observa, Não se preserva, Pois se obstina Em me reconhecer enquanto se aproxima, Uma jovem concubina Vindo da taverna. Tão curiosa e indiscreta é ela, Que se apega as pregas da cortina, Tomba pra frente e quase cai por cima Do parapeito estreito da janela. É uma viúva boateira e velha Que há muito tempo reside sozinha. Triste, malévola e também mesquinha, Tornou-se frigida e maquiavélica. Vai a igreja, ajoelha e reza, Uma megera em trajes de santinha. AO ANDAR PELA RUA Não consigo andar pela rua Sem revê-la em mais de um rosto, Um cabelo, uma calça, uma blusa, Até mesmo, outro corpo. Uma voz que me chama, eu a ouço. Uma boca parece com a sua, Insinua beijar-me de novo. Sem você não sou todo, Todo o mundo é tão pouco, Todo ouro é penúria, Meus juízos parecem loucura, Minhas juras não passam de engodo. ATRAVÉS DA RETINA O seu rosto irradia uma luz cristalina Que seduz e ilumina minha alma sombria. Sua boca macia, sussurrando ainda, Diz que é minha, toda a sua alegria. Seu sorriso me guia nessa vasta campina E desfaz a neblina que já me confundia. O seu corpo alicia a paixão libertina, Que domina minha mente arredia. Sua volta alivia a saudade ferina, Me conforta, me anima e me traz euforia. Soube que amor havia, através da retina, Vendo você tão linda quão no primeiro dia. CORAÇÃO PARTIDO Anoiteço, Ouço o vento chamá-la, É o amor que me fala no anseio contido. A saudade no sono se cala. Adormeço tentando beijá-la. Amanheço de coração partido. ESSE AMOR Esse amor que nos colide feito estrelas no infinito, É um inesperado mito que nos une e nos divide, É o único palpite numa aposta sem sentido, É o último pedido que entre beijos se revide, É a mão que nos agride pelo mínimo motivo, É um pertinaz aviso pra que a cama nos convide, É a corte que decide a punição de dois cativos, É o clamor dos fugitivos pra que nunca os castigue. O JARDIM É a época em que o jardim aflora. Há covas para serem cultivadas. Eu águo a terra estercada, Dando vida a inopinada flora. Há meses, o vergel enflora. Pelo meio das leivas regadas, Há plântulas ainda orvalhadas No silêncio da aurora. Há flores para colher lá fora. Anseio pela esperada hora De adornar a minha amada Com pétalas de cor variada, Colares de botões de rosa. Que lazeira lamentosa, Eis que a impiedosa parca À minha doce amada, abarca, Ao meu coração devora. O meu jardim se desflora, Perde o viço de outrora, Pouco a pouco se devasta. E na sepultura gasta Onde ela, hoje, mora, Uma singular flor brota, Desconsolada. ENTRE MEDO E REMORSOS Entre medo e remorsos, Esse amor nos condena A vivermos de pena E baldados esforços. Nossas mentes e corpos Num eterno dilema, Enfrentar o problema, Sem estarmos dispostos. Somos insidiosos Na paixão violenta Quando entram em cena Laços afetuosos. Já não faço o que posso. Você nem mesmo tenta. Esse amor nos condena A vivermos de pena, Entre medo e remorsos. FORÇADO ABANDONO A saudade tende aumentar a dor Da separação que estamos nos impondo. Sei que estamos evitando Com o forçado abandono De tão proibido amor, Um enorme amargor Àqueles a quem mais amamos. Seu silêncio só está me castigando, Não consegue postergar o meu amor. Relegado ao dissabor, ao desencanto, Reconheço o enorme engano De acordar com seu teor. UM PANO DE FUNDO Sempre fico aparvalhado quando a vejo. É tão forte o meu desejo Que não finjo, não disfarço. Qual astronauta no espaço, Absorto com a visão do próprio mundo, Eu a vejo em frente a um pano de fundo Que encobre todo o resto do cenário. Na ilusão de ser um casal solitário, Continuo alheado com a sua aparição. Seu sorriso manifesta minha paixão, Chego a sentir o doce dos seus lábios. Não percebo o quanto isso é temerário Ante o curioso olhar de inquirição Que nos lança, cada um dos funcionários. PAIXÃO PROIBIDA Na sua boca permissiva, Os beijos são viciosos. Seus lábios apetitosos, Não me dão alternativa. Nessa relação nociva, Entre olhares perigosos, Tornamo-nos aleivosos Condenados à desdita. Essa paixão proibida, Arrasta-nos ansiosos, A uma reação fingida. E entregues à desdita, Somos dois insidiosos Que se perdem pela vida. A SENHORA Eu a amo Senhora, Mesmo na ânsia das horas E dos encontros ocultos. São aos seus atributos Que meu corpo implora. Esse amor me apavora, Por ser irresoluto. Conto cada minuto Para tê-la de volta. Minha alma, Senhora, É devota ao seu culto. E num breve singulto, O meu coração chora. ENTRE JAZIGOS LUSTROSOS Aonde iriam os mortos? Ao rio dos remorsos, Onde apesar dos esforços, Não há como emergir. Os vivos teimam em seguir O caminhar de seus ossos. O praguejar de seus rogos, Ainda tentam ouvir. O verbo é inexistir. A carne, pútridos corpos. As vozes, meros monólogos, Entre jazigos lustrosos, Dos que permanecem aqui. ÚLTIMA SAÍDA Não me queixo da má sorte, Nem das noites mal dormidas, Essa rouquidão maldita, Só me deixa mais disforme. Minha boca é um fino corte, Onde a língua comprimida, Sofregamente inaudita, Não permite que eu discorde. Ainda me resta a morte Como última alternativa, Se acaso, minha desdita, À vida, não suporte. OLHOS TRISTES O que vejo em minha frente, Senão grandes olhos tristes Que perguntam se existem Tão amargos e descrentes? Por demais impertinentes, Imperturbáveis, assistem Às lágrimas que resistem Negar veementemente. IMBECIBÉIS A poluição sonora É medida em decibéis. Aos imbecis fiéis A um som que incomoda, Eu alcunho imbecibéis (Imbecis, débeis fiéis Que perturbam a toda hora). PROCURA-SE VIVO OU MORTO Os meus ditos malditos São levados ao vento Pelas vozes do tempo, Pelos rogos benditos. Os meus gestos contidos São deixados largados. Às vezes, me despedaço Entre abraços mal cingidos. Feito um reles bandido, Sou mais um procurado, Vivo ou morto, ou matado, Morto ou vivo, ou vivido. ASSÉPTICO Ao andar pela rua sem ter um rumo certo, Imagino um deserto de incompreensões, De estranhas visões de um homem desperto Pelo seu intelecto, pelas suas ações. Através de ilusões, procura o concreto, Na verdade, ao inverso, vaga em abstrações. Inventando missões de um mito decrépito Que se torna adepto de suas ambições. Ao clamor de orações, me condenam ao inferno, Um abismo aberto em dóceis corações Que fiéis como cães se entreolham famélicos Pelo meu sangue asséptico às suas maldições. Formam-se em legiões de caráter maléfico, Um embuste arquétipo de suas frustrações, Provocando lesões que acreditam por mérito, Regredindo aos séculos de barbárie e de superstições. NATIVOS “Na verdade, na verdade vos digo”: Eu sou um mito Que ainda vaga pelo mundo Por seu desgosto profundo, Pela força do castigo. Sou impulsivo Em meus mandos e desmandos. Sou desumano Tão insano quanto o rito Desses nativos Submissos aos reclamos De um suposto paraíso. SE Se o mundo se tornasse Um lugar de alegoria, Onde a lenda e a fantasia Fossem tudo que restasse, Eu duvido que prestasse Sem o toque de magia Que encanta noite e dia Que é a própria realidade. NÓ Por ser tão só Em meio à solidão da vida, Seiva mantida Nas voltas de rijo cipó, Sou como um nó Em uma corda apodrecida, Sem serventia, Capaz de desfazer-se em pó. MEU DESERTO O meu deserto É infinito em tons de areia, É a mais lúgubre certeza De que não há ninguém por perto, É tão concreto Quanto a pedra que alheia, Delineia Meu lugar no cemitério. MESMO CALADA Teus olhos querem por fim, Dizer-me calma. Mas, tua alma Pede muito mais de mim. Tua boca ainda diz sim, Mesmo calada. Sabe que nada Vai tirar você de mim. PERSONAGEM LITERÁRIA Personagem literária Que teima em ganhar a vida Numa ascensão desmedida A uma estação elevada. Não pode ser derrubada, Nem jamais ser ofendida. Desconhece a dor sentida Por ser mera fantasia De uma mente alucinada. Em si mesma, não é nada, Por ser massa fictícia. Criador que é mera cria, Entre páginas antigas, Criação mitificada. HESITADO ANDAR Quão difícil compreender essa mulher Que ainda me quer Mas não quer se dividir. Ela teima em fugir por sua fé, Manter de pé Cada dia do existir. Seus lábios teimam em pedir O que a boca diz negar. Quer me amar Sem me sentir. Sua fidelidade ao lar, se faz ouvir. Enquanto a vejo se afastar Com aquele hesitado andar De quem deseja me seguir. SOB PESTANAS PISCADAS Sob pestanas piscadas, Meus olhos buscam por ti Na densa névoa de lágrimas Desse meu torpe existir. Ainda a vejo aqui, A me sorrir, encantada Com as mais doces palavras Que tentam te iludir. Mas se dissipa, a fugir Nessa volátil fumaça, Tão irreal que se apaga. Entre meus lábios, fumada. Entre meus dedos, deixada, Relegada ao desistir. ADEUS SEM ACENO DE MÃO Talvez nem você compreenda Como uma paixão tão intensa Pôde arrefecer-se no tempo. Hoje, um breve pensamento, Uma distante ameaça. Como um vendaval que passa E nos deixa mitigados Pelos danos serem parcos, Foi esse amor relegado A uma distante lembrança. Fica, quem sabe, a esperança De que essa imposta distância Foi a melhor decisão. E que cada coração Siga a seta já mirada. Você não me deve nada, Pois me deste a maior paga, Um amor sem restrição. Deste adeus à ilusão, À improvável realidade Que pode haver felicidade Onde há infidelidade, Mentiras e dissensão. Dou adeus sem aceno de mão, Não por falta de ousadia, Mas por ausência de alegria E por mortificação. Fim por tudo ter acabado. Sempre é algo inalcançável. Esperar é frustração. À DISTÂNCIA Em minha dor sem dó, Tenho as mãos lavadas. Em duras palavras, A verdade é uma só: Ao soprar-lhe em pó, Não me restou nada. Nem uma marca d’água, Nem sombra e/ou traço De que ainda há algo, Foi-me revelada. Já não tenho mais alma Que me leve ao céu. Não há versículo em papel De um anjo cruel Que ande pelo meu chapéu, Circulando a aba. Num berço de palha, Um rei sem nobreza, Morreu na certeza De sua própria farsa. Sua lenda afaga Pela ignorância, A falsa esperança De uma suposta graça. Os delírios em massa Com a sua arrogância, Mantêm crucificada, A razão humana. Enquanto à distância, Essa vida passa. Enquanto essa vida passa À distância. A FLOR DO JARDIM ALHEIO Eu me perdi de você por algum tempo, Entretido em pensamento, Encantado com outra flor Que vi no jardim alheio. Não me perdi por inteiro, Talvez por tenaz amor A quem me tinha primeiro. Se eu não fui verdadeiro Com cheiro tão sedutor Que me atraiu e me deixou Sem rumo, sem paradeiro, Peço perdão a quem for, Seja a você meu amor Ou à vicejante flor D’aquele jardim alheio. Não haveria outro meio De reencontrar o caminho, Se eu não ficasse sozinho, Sem a flor do jardim alheio. Ela murchou-se no canteiro Por zelo e por carinho, Não sei se a mim, descaminho Ou ao seu amor primeiro. Estou de volta e receio Que a flor do jardim alheio Renasça em novo botão E que sua bela visão Arraste o meu coração À devoção e ao enleio. COMO NUM PASSE DE MÁGICA Quanto teve que esperar A minha mãe emprenhada, Que eu ainda em larva Viesse a me transmudar? Tanto quanto a se moldar Numa versão transformada, Uma figura que nada Na escuridão do lugar. Nasci sem me demorar, A luz do mundo me abala, Enquanto uma mão me afaga Na intenção de calar. Entre falar e andar, Eu comecei criar asa E mesmo dentro de casa, Já começava a voar. Meu pai ao me abraçar, Sempre me aconselhara, Desde a criança deixada Até o meu madurar. Que a vida tende a passar E de maneira tão rápida Como num passe de mágica, Como fumaça no ar. Filho, viva com vagar, Sustenha cada passada. Ante tão breve jornada, Nunca se deixe apressar. Sigo, rumo ao que virá, Relembrando da estrada Que por mim já foi trilhada. A chegada, meu fim será. No mais singelo olhar, Na mais vulgar das palavras, Na mais simplória risada, Vejo algo singular. Não me canso de pensar: O intelecto é uma dádiva Que a evolução legara Ao encéfalo angular. Vivo a me extasiar, A realidade basta. A matéria é tão vasta Quanto se possa alcançar. É fantástico imaginar, Mantendo os pés nas sandálias, Pois as nuvens são levadas, Transparece a luz solar. O meu ímpar pede par. Filhos andam pela casa. Eis que a vida se desbasta Entre as portas de um lar. Com o tiquetaquear, Ouço a vida oscilada Pelo tempo que não para, Que não para de contar. Corre solta, sem parar, Feito égua numa raia, Essa vida que esbarra Numa faixa a enlutar. Decrepitude e pesar, Eis minha vida ceifada. Deixo de ser quase nada Para nada me tornar. O PEIDÃO Digo logo, de antemão, Que o ato é repulsivo, Constrangedor, descabido, E é falta de educação. Peidar pra ele é missão. O mau cheiro é divertido. Mas parece desprovido De tão sutil sensação Que passa pra acusação, Sem rodeios, diz convicto: Você peidou, fui eu não. Veja que situação: Cheirar seu peido expelido E ainda assumir a emissão. SE EU JÁ TIVESSE MORRIDO Se eu já tivesse morrido Há alguns anos atrás, Não me seria demais Pensar num túmulo florido. Entre lápides e gemidos, Seriam lidos os meus ais. Ante a morte dos demais, A minha perde o sentido. Tal destino está predito, É a predica dos mortais, Cada qual por um delito. Todos buscam um veredito Entre Deus e Satanás. Eu desprezo esse prescrito. COMPLEXA UNICIDADE Vejo o todo, essa complexa unicidade, Não como uma divindade que possa raciocinar. Apesar de sua singularidade, É a mera totalidade do que há. Não pode se aperceber por não pensar, Incapaz em sua materialidade. Não há forma que o possa deslindar Por sua incomensurabilidade. A despeito da arrogante vaidade Que tem a medíocre humanidade, Cabe-lhe uma função peculiar, Como partícula, mesmo que elementar, Tem por si, a sua essencialidade: Manter do todo, a soma, a integralidade. ÚNICA QUEIXA Foi sua infidelidade Que me permitiu amá-la. Contudo, sua dignidade, Apesar de afastá-la, Não me fez esquecê-la. Como posso demovê-la De uma decisão tão árdua, Quando devo acatá-la e reconhecê-la? Sei que fiz por merecê-la, Não devo enganá-la. Quem dera poder beijá-la E novamente tê-la. Sentir tanto a sua falta É o que me agasta, É a minha única queixa. SUCUMBIR DIÁRIO Meu inevitável sucumbir diário, Eu assiná-lo com enorme vagar, Nas finas páginas de um calendário Que estático teima em me apressar. Meus dias gastos, passo-os a contar Sob a ilusão de que é temporário Esse meu hábito de cronometrar, Esse maldito ato costumário. Sou consciente ser desnecessário O meu esforço de desacelerar Ou de poder tornar estacionário O constante badalar do horário Que o pêndulo insiste em reverberar Em meu ouvido refratário. JAMAIS TERMINA Não sei se a amo ainda Na mesmice e na rotina, Depois de tantos anos. Enchi nossa casa de sonhos Que entre paredes e planos Perderam-se sob a míngua Desse ingrato sentimento Desgastado pelo tempo E pela luta contínua. O amor não nos ensina Quanto a perdas e ganhos. Nós descontinuamos. Mas, jamais termina. PAIXÃO DESVAIRADA Estou tentando esquecer, A cada dia que passa, Essa paixão desvairada Que vive a me endoidecer. Essa angústia em querer Como se tão necessária Que ao não poder alcançá-la Creio não possa viver. Essa paixão desvairada é você Que atormenta minha alma, Que me condena a sofrer. Ah! Por que fui me aprazer De uma dona obstinada Que já não quer se envolver? ATEU PERNICIOSO Quem é aquele pálido horroroso Em meio à multidão de galhardos, Aquele de olhos esbugalhados E de semblante asqueroso? É o único disposto A lutar pelos mais fracos. É também um dos fanáticos? É mais um religioso? Não, é um ateu pernicioso. Diz que Deus é um escárnio Ao intelecto do povo. Enquanto o mesmo, de novo, É deixado ao descaso À espera de um ato milagroso. BOSQUE DE TRISTEZA No teu rosto por inteiro, Há uma proporção perfeita. Tua boca tão afeita, Dá-me medo. Medo de ser condenado A amar sem ser amado, A sofrer uma desfeita. No teu colo, uma colheita Entre frutos perfumados, Sutilmente adocicados Pelos lábios de quem beija. Uma dona que alheia Aos meus cuidados, Me mantem enclausurado Em um bosque de tristeza. Caem folhas sobre a cesta Onde guarda meus recados. Em meus olhos lacrimados, Se espelha. Não me avilta que me veja Eternamente enraizado, Sendo arbúsculo vergado, Nesse bosque de tristeza. OLHAR VOCÊ Meus olhos teimam em falar O que eu não posso dizer. Eu não consigo fechar Meus olhos sem não te ver. Não há milagres, nem flores, Nem mesmo filhos e amores Que me façam parar de olhar Você. A VIZINHA Enquanto a casa, eu retelho, Para uma arrumação. A vizinha tão sem zelo, Chama a minha atenção. Linda, nua em pelo, Olha-me com o mesmo anseio Que há em meu coração. Eu não faço uma oração Porque não creio. Porém, fico de joelhos E imploro que não, Não me deixe na mão, Preciso mesmo. DÚBIA EXISTÊNCIA Toda essa miséria é relegada Aos pés da indiferença E do silêncio. Assim como eu, são tantos outros, Sem o menor esforço Para dirimir o sofrimento, Para uma mais justa equivalência. Não me aborreça, não me ofenda Com essa fervorosa crença Em um deus que é muito pouco Para a minha inteligência. A subserviência, Deixar-me-ia louco. Não há conforto para um morto, Sua dúbia existência. A... Esse “A” disperso em frases, Ainda me leva Àquelas tardes De Ai, quantas saudades De nós dois! “A” de Antes e depois, De Amenidades. “A” de Animosidade que se foi. Esse “A” de dar Adeus sem merecer, De Além do que eu posso fazer, É o “A” que diz seu nome. “A” de Alguém que não responde Aos Aulidos do meu triste padecer. Esse “A” deixou de ser. “A” de Amada fez-se Amiga Na esperança que Algum dia Esteja Amadurecida Para o caso inverter. Esse “A” que Ainda tento entender Por que Abdicou de mim, É o início, é o fim Do meu doce bem querer. Esse “A” de Amo você, De Abandono, de Acabou, É o mesmo de Aquela que não vê Que não vai deixar de ser O meu único Amor. Esse “A” que me restou É de Algo mais, Não define os meus Ais, Mas Assiste à minha dor. QUEBRANTO Sinto tanto a tua falta, Tanto quanto Me entristeço e me espanto Com a ausência que se arrasta, Com o silêncio que te cala, Caio em pranto. O teu rosto tem o encanto Que me basta. Tua boca agora casta, Friamente se afasta E me deixa ao quebranto. NO VAI E VEM DO CAMINHAR O que é o ladrão, Senão o mesmo cidadão Com o intuito de roubar? O que divide esse mar De ilusão Onde boiam precisão E bem-estar? No vai e vem do caminhar, Não há razão Que uma tênue emoção Não tenha força pra dobrar. O que devemos esperar Diante da indefinição Onde uma mínima ação Pode ao futuro transmudar? Como calar Perante a imane frustração Que enfurece o mais afável coração, O acicatando a clamar? DE VOLTA PARA CASA Traga-me de volta para casa. Manter a porta escancarada, Não me faz entrar. Preciso novamente te amar. Corte-me as asas, Eu não quero mais voar. A liberdade que me fez vagar Pelas mesmas estradas, Silenciosas e solitárias, Que eu vivia a imaginar, Já não consegue fascinar. E a clausura de um lar Parece-me agora, tão necessária Quanto essa ação involuntária, Essa vontade de chorar. COMO AMEI OUTRORA Eu a amo ainda, Quando o dia finda E você vai embora. Como amei outrora, Nas primeiras horas, Eu a amo ainda. Você ilumina Com a luz da retina, Minha vida umbrosa. Precavida, ignora Este que fixo, a olha, E lhe descortina. JASMIM Você ficou em mim, Como uma tatuagem, Gravada sua imagem Em tinta de nanquim. Em meu deserto, enfim, Você é a miragem Que me dá a coragem De ir até o fim. No sáfaro jardim, É a verde folhagem E se mantem assim. Seu cheiro de jasmim Que veio com a aragem, Ainda respiro em mim. CORAÇÃO DO PRÓXIMO A crescente esperança se avoluma Ao sabor das palavras que consolam, Fechando as feridas que as nossas próprias unhas Em mãos humanas, nos esfolam. Os olhos ainda choram Entre o medo e o gesto de nobreza. Sorrimos ante a face da tristeza, Por sentirmos tanto ódio. A bênção do perdão é o próprio ópio, O milagre do remorso De quem se torna perverso Nas emoções de um outro universo, Que é o coração do próximo. ROSTO Fujo desse rosto que me intriga Numa acusação desmedida de meus erros. Julga ter direitos em cobrar-me uma conduta Que me livre de uma culpa Que não cabe em si mesmo. Passo os dedos entre os meus cabelos, Afastando o peso da memória. Vejo que o espelho já não chora Na esperança que agora Eu atenda aos seus apelos. UM SOPRO DE VIDA Corro desesperadamente à procura de saída Dessa maldita vida Que me prende a esse corpo Que quase morto Minha alma ainda habita E por ser nele finita, Vai se desfazendo aos poucos. Corro feito um louco, Sem saber que me orbita A razão que me elucida, E de nada valeria meu esforço. Por ser tão moço, Eu jamais concordaria. Continuo nessa agonia De correr na ventania Contra um sopro Que afaga o meu rosto Com malícia Na intensão que eu não veria Que ainda sofro. AOS PAIS Onde anda a obediência Dos filhos aos pais? São sinais De mau tempo Quando se elevam ao vento, As ofensas e os ais. NA PRAÇA Há um casal sentado na praça, Sob um céu pálido de raro entardecer, Que lembra eu e você No mesmo estado de graça Que só no amor pode se ver. Enquanto tento descrever, Eu emudeço entre lágrimas. A linha parece ocupada; Do outro lado ela tenta entender. Alô, amigo é você, O que se passa? Enfim respondo: Não é nada, Estou sentindo a sua falta, Preciso muito lhe rever. Não, você tem que se conter, O meu consorte está em casa, Seja mais forte, tenha calma, Aos poucos, vai me esquecer. E sem mais nada pra dizer, O celular assim se cala. E a saudade vira mágoa. O mesmo amor que me desarma, Em minha alma continua a combater. MEU CÃO PASTOR Jeová, meu cão pastor, Cruelmente escavacou O éden, nosso jardim. Com o pontapé que dou, Ele corre com a dor, Ele grita então, Caim! Jeová não é ruim, É um cão farejador Que procura com ardor Uma presa pra seu fim. Quando a gente pensa, enfim Jeová se acalmou, Ele mostra seu furor, Os seus dentes de marfim. Jeová é um cão assim, Late com o seu Senhor Implorando por amor. Quer ser o meu salvador, Mas só é salvo por mim. LÁBIOS SELADOS Quem poderia saber Que em meus lábios selados, Que em meus olhos velados Estava o ato de morrer? Quem poderia entender Que exorcizava meus medos, Que exercitava meus erros Para tentar aprender? Ninguém. Posso eu mesmo responder, De meu cadáver inumado. AO SABOR DO VÍCIO Na solidão da rua, Na embriaguez do copo, A timidez nos olhos Continua... Ele observa a lua Enquanto vive o ócio, Por já não ser mais sócio Da labuta. Não acredita em culpa, Por não sentir remorso. Fará qualquer negócio, Menos pedir desculpa. E se alguém lhe acusa De não manter-se sóbrio, Sorri pelo que é óbvio: Viver é melancólico; Morrer, simples recusa. OS MEUS OLHOS Os meus olhos me observam do espelho Como se conscientes de si mesmos. Reconhecem em minha face, os seus erros E silenciam como cúmplices Do meu silêncio, Da minha sorte. Os meus olhos num só corte, Perdem o medo De jamais verem o que vejo, A minha morte. UM NÓ NA ALMA Eu deveria desatar O nó que prende minha alma. Talvez deixasse de ser nada Além de um homem tão vulgar. Talvez pudesse encontrar O Eu que não me procurava. Que simplesmente se enforcava Num nó suspenso, a balançar. ABSTRAÍDO Eu sinto a espuma do mar Tocar de leve meus dedos. Eu teimo em caminhar, Seguir o dia inteiro E adentrar pela noite, Enquanto o vento em açoite, Assanha os meus cabelos. Afasto os meus pesadelos Entre o marulho do mar E o barulho do vento. Entregue aos meus pensamentos, Eu sou capaz de voar. Ouço uma voz me chamar À realidade do instante: Sou um sonhador errante, Sou um jovem cadeirante Que observa radiante, A imensidão do mar. DESALENTO, DOR E SOLIDÃO No começo, ao desabrochar a flor, O perfume que exala é sedução; O querer servir não é escravidão, É apenas gratidão ao seu senhor. Essa força que não há como se opor, Que nos tira o equilíbrio e a razão É aquela chama acesa, a paixão; É o fogo que nos queima, é o amor. Uma página que o tempo apagou, A magia que perdeu a ilusão, Eis a lágrima de uma separação A estranha comoção, o desamor. No silêncio, é o grito de horror Que eclode na extrema escuridão. Desalento, dor e solidão São as sobras relegadas pelo amor. PRISIONEIRO Não existe uma alma No meu corpo solitário. Não existe um dinossauro Em meu quintal. Sou mamífero mortal Que não se cala, Uma vítima de um mundo temporal. Fui deixado à mercê, em uma vala; Fui julgado pela convenção moral; Prisioneiro de uma humanidade falha Que se basta na ilusão de bem e mal. AO REFLEXO NO ESPELHO Quem é você? Eu me pergunto e jamais soube responder. Você que vive e não sabe o porquê. Você que luta inutilmente pra viver E sem poder Deseja ter a melhor sorte. Você que foge de si mesmo Por ser real seu pesadelo, Um ser que solitário morre. SOB LUAS, SOB SÓIS Assim vamos cada um de nós Soterrados pelas pás dos coveiros Entre passos sorrateiros Sob luas, sob sóis. E em cada dia o que dói, Que parece um pesadelo É tão frágil, passageiro, Que a si mesmo se destrói. Eis que o tempo nos corrói E temos medo Por saber que estamos sós. OS AMIGOS Os amigos dispersos na vida, Já não se veem mais. Seu amores ficaram pra trás Com seus ais e alegrias. Suas conversas foram esquecidas, Se tornaram banais. Suas condutas não serão jamais Como foram um dia. AMOR IRRESTRITO De quem era aquela mão Que me afagava os cabelos, Acalentava e acalmava Os meus torpes pesadelos? Nunca precisei chorar, Ajoelhar e rezar Ou fazer milhões de apelos Pra essa mão me abençoar Ao saber me perdoar Por tantos erros. Apontava meus defeitos Sem jamais me ameaçar Ou impor qualquer castigo. Seu amor era irrestrito. Sempre me fez se orgulhar De ser seu filho. A TRISTEZA DO MEU ROSTO Será que o lençol cobre meu corpo Por estar morto Sobre a penumbra do arrebol? Eis que alguém levanta o lençol Para ver qual é o rosto. Quem sabe está pensando: era tão moço, Talvez desgosto, Não verá mais a luz do sol. E cobre novamente com o lençol, A tristeza do meu rosto. OLHOS DE EXTREMA AGONIA Esses olhos de extrema agonia Que me observam em silêncio São da morte Que me corrói por dentro Procurando uma saída. Esse espelho me arrepia, Expressão de sofrimento De um olhar que é só tormento Pela falta de alegria. Essa dor em mim contida, Faz a noite mais comprida, Faz mais vasto o breve tempo. Busco em vão nesse momento, Um pensamento Que não seja o fim da vida. ENQUANTO ABRAÇO A SOLIDÃO Será que tenho mesmo que mentir Para aplacar meu coração? Nos braços tenho a estranha sensação De que ainda está aqui. E minha alma põe-se a sorrir Enquanto abraço a solidão. As lágrimas que me turvam a visão São as mesmas que a viram então partir. Agora, teimam em me iludir, Vejo você na escuridão. Estendo a minha mão Na intensão de impedir A sua imagem de se diluir, Mas você teima em sumir Enquanto abraço a solidão. CORTESÃ AFOITA E quando os filhos dormem, Ela se entrega a mim... Louca, por que se dá assim? Enquanto beija a minha boca, Ela se deixa, solta, Ser penetrada enfim. A minha língua nua sorve Seus grandes lábios de carmim. Ela se abre toda, Tal qual flor no jardim. Os seus gemidos dizem sim Para que eu não me sufoque, Sofregamente em cada toque, Ela prolonga junto a mim. Acende-se um estopim: Ela transmuda-se de esposa Em cortesã afoita. Exaustos e sem roupas, Não temos mais escolha, E chegamos ao fim.


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