Buscar em     por     
     Minha Conta/Login | Publicidade | Contato     

     Home    PUBLICAR   CADASTRO   Pets Brasil   Postais   Busca RS   Ajuda










  Categorias

Ver Todas as Categorias

Procurar por municípios


  Serviços

Procura um novo amor? Cadastre-se grátis no Cupido BR

Mande postais gratuitos do RS e de todo o país. Agende eventos


  Destacados


Dr. MARCO TÚLIO VICHINSKI ROCHA



     

Você está na seguinte Editoria:   Home > Notícias > Política

Alexandre Machado: “Não era uma Assembléia de santos. Era uma Assembléia de homens”

Comentários | Adicionar a Favoritos | Enviar a Amigos |


Publicação: 03/12/2007

Aos 77 anos, Alexandre Machado da Silva foi deputado estadual eleito entre os anos de 1963 a 1975. Na legislatura de 1959 a 1963, assumiu como suplente. Na vida pública, foi ainda deputado federal e conselheiro do Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul. Gaúcho de Arroio Grande, hoje mora em Porto Alegre. Está aposentado e ocupa o tempo administrando estabelecimentos rurais de sua propriedade. Tem dois filhos e quatro netos. Quando perguntado se é filiado a algum partido político, é direto. Diz que "não, graças a Deus".

Como começou a atividade política?
Comecei em São Leopoldo, vereador aos 22 anos. Já no segundo ano de Direito, na faculdade, me meti de vereador. Nisso o presidente da Assembléia, deputado Hélio Carlomagno, me convidou para trabalhar na AL. Eu vim. Depois de estudar o programa partidário do PSD, entrei na vida pública. A legenda do PSD era igualdade de oportunidade, segurança e bem-estar para todos.

O senhor passou um bom período legislando no Casarão da Rua Duque de Caxias. Como era?
Funcionava direitinho. Esta casa foi muito importante na história do Rio Grande. Nos idos da década de 30, 35, a composição dela era o Loureiro da Silva, o A.J. Renner, Edgar Schneider. Houve um momento em que esse plenário era um verdadeiro santuário, em que o povo escolhia para cá aqueles que tinham efetivamente maior bagagem cultural. Houve um momento em que a casa velha foi um luzeiro. Nessa época eu tinha uns cinco, seis anos de idade.

O senhor foi presidente de diversas comissões técnicas. Lembra de algum fato marcante?
Quando fui presidente da Comissão de Saúde, em 1974, eu recebi o título de Grande Irmão Benemérito da Santa Casa, pelo trabalho executado. Na época, a Santa Casa tinha uma dívida de 500 milhões de dinheiro daquele tempo. E nós conseguimos com o presidente Médici um cheque de 500 milhões. A Santa Casa não fazia convênio nem com o INSS, nem com coisa nenhuma. Aí nós começamos a fazer os primeiros convênios. Com esses convênios novos, na maternidade, por exemplo, a cada criança que nascesse, pingava um dinheiro da União, do Estado e do município. Eu me dei o trabalho de saber qual era a origem da gente que era atendida pela Santa Casa. E descobrimos que, naquele tempo, de Porto Alegre eram 20%. Os prefeitos mandavam os doentes, largavam na porta da Santa Casa, não pagavam nada e a Santa Casa tinha que bancar tudo.

Como legislador o senhor viveu períodos distintos: um democrático e depois outro sob o regime militar. Havia diferença para a postura e o trabalho do deputado?
Eu sempre fui muito independente. Nunca transigi em matéria de princípios. Tanto que em 1964, o presidente do então PTB, doutor João Caruso, que era a segunda figura do trabalhismo, depois do Brizola, decidiu não se exilar. Daí os militares invadiram a sua casa, prenderam-no e o jogaram na penitenciária, no meio de criminosos comuns. Ele me faz uma carta da penitenciária dizendo que havia escolhido o seu adversário mais extremado e decidido, mas que ele julgava um homem compreensivo e justo. Escreveu uma carta muito bonita que está na parede do meu escritório. Isso foi em novembro de 1964. Dia 30.

E o que o senhor fez?
Eu fui chamado a tomar um "cafezinho" no 3º Exército. Eu disse que não ia, se quisessem me prender, que me prendessem, mas eu não iria. O ajudante de ordens do comandante do 3º Exército me perguntou se eu iria tomar um uísque na casa do comandante. Daí disse que aceitava. E fui lá. Sala cheia de generais, do Paraná para cá. Me colocaram num gabinete pequeninho. Dali a pouco, o comandante entra, olha para mim e diz: deputado o senhor está fazendo o jogo do inimigo. Eu digo: general, pelo que eu sei, fui convidado para tomar um uísque. Não precisa me servir nada, mas eu só quero que o senhor me permita dirigir a palavra. E ele me disse que eu podia falar. Daí eu perguntei se na área do 3º Exército havia algum militar punido porque não tinha obedecido a sua patente militar. Um general preso em cadeia comum. Ele me disse que a revolução tinha vindo para salvaguardar a Constituição e as leis contra a subversão e a corrupção. Daí eu disse, muito bonita a revolução na área militar, mas há um "general civil" sem processo regular, sem culpa formada, na penitenciária estadual convivendo com criminosos comuns. Era o Caruso. E até as vestes carcerárias teve que vestir. Eu te confesso que nem o general sabia deste fato. Ele ligou para o secretário de Segurança e consegui que se levasse o Caruso da penitenciária para um abrigo de menores.

Por quanto tempo ele ficou preso?
Vem chegando o Natal, e a família do doutor Caruso me procurou. Como eu consegui tirar ele da penitenciária, acharam que eu era o sujeito. Coisa nenhuma! Disseram-me então que a família iria cantar os cânticos natalinos embaixo de uma árvore defronte à janela onde ele estava preso. Daí eu pedi outra audiência ao general, e ele me concedeu. Fui lá, ele estava muito alegre, recebendo muitos telex, cumprimentos e presentes. E ele me pergunta: afinal deputado, o que o senhor quer? Eu disse que estávamos na véspera do Natal e que no dia de Natal havia ocorrido a humanização de um Deus. E que a gente aproveitava o Natal para se abraçar, para se perdoar e para falar coisas amenas. E disse: eu vim lhe pedir um presente. Não igual a esses que o senhor está recebendo. Mas um presente cívico. Não tenho procuração mas o faço em nome do Rio Grande. A liberdade do doutor Caruso, para que ele possa passar o Natal em companhia da sua família. Ele levantou, saiu, voltou e disse: deputado, o senhor pode avisar a família do doutor Caruso que ele vai passar o Natal em casa.

Período complicado, não?
Era um período bastante complicado. Essa história de ser independente me custou bastante caro. Sempre que um secretário de Segurança viajava para a capital federal, levaria na sua bolsa o meu nome para a próxima cassação. Na eleição de 1966, o Diário de Notícias, de grande circulação, colocou na capa que seriam nove os cassados do Rio Grande do Sul. Colocaram como cassado o posterior ministro Paulo Brossard de Souza Pinto, Honório Severo, o Nelson Marchezan e eu. Na véspera da eleição. Isso foi num domingo, a eleição foi no outro. Uma notícia dessas custava a eleição de uma pessoa. Um voto cassado era um voto perdido. O governador Peracchi Barcellos desmente no jornal apenas a minha cassação. O Marchezan, que ninguém desmentiu nada, naquele ano não se elegeu. Vítima de uma mentira, de uma falsidade. Eu fiz 25 mil votos, fui o mais votado do partido.

Como foi o dia da mudança da casa antiga para o Palácio Farroupilha?
Eu acho que eu era o vice-presidente. A casa era maior, mas os gabinetes eram muito pequeninhos. Muito modestinhos. Eu tinha sorte porque, em geral, eu presidia comissões. E na própria vice-presidência fiquei com um gabinete maior, com mais funcionários. O deputado tinha um secretário ou dois, no máximo. Eles ficavam socados do lado do gabinete, num lugarzinho estreito.

Como ficou a atividade legislativa depois da revolução?
A gente sempre se sentia mais livre antes de 1964. A partir de 1964 houve a tutela do governo militar. Isso limitava muito a pessoa. Eu não me sentia limitado porque era bastante independente. E tive sorte de não ser cassado. O que eu acho também é que no ano de 1964 a oposição se acomodou muito. Até temerosa de cassações. Depois a coisa foi entrando nos eixos. A vida continuou. O período revolucionário passou e o Brasil é esse que estamos vendo hoje.

Como foi a eleição do Carlos Santos para a presidência da Casa, o primeiro negro eleito deputado?
Carlos Santos era um grande sujeito. Extremamente inteligente. Eu era veranista do Cassino, em Rio Grande e Carlos Santos era de lá. Éramos bons amigos, eu sou cidadão riograndino também. Ele foi um bom presidente.

Mas houve debate sobre elegê-lo?
Não, as coisas naquele tempo eram mais naturais.

Era natural também a vinda da população para a AL, para se manifestar ou protestar?
Muito difícil...

Isso se devia à realidade da época ou ao desconhecimento das coisas?
Acho que a Assembléia estava mais vinculada ao povo, às suas aspirações, aos seus desejos, aos seus sonhos. E os deputados, no meu tempo, pelo menos grande parte deles, tinham muito de intransigentes quando se tratava de princípios. Não se transigia diretamente com o erro. Depois tudo passou e o Brasil é isso que conhecemos hoje. Não dá nem pra conversar.

Por que não dá nem para conversar?
Não dá para conversar porque... Depois que saí do Tribunal de Contas, alguns deputados me procuraram. Se eu assinaria ficha em algum partido. Eu respondi: disse que nenhum. Pelo quadro da área federal de mensalões, de gente vendida, de falta de escrúpulo, uma vergonha para o povo.

O senhor hoje não é filiado a nenhum partido?
Graças a Deus!

Em entrevista com o ex-deputado e ex-presidente da Assembléia Cândido Norberto, ele me contou que houve um episódio muito marcante em plenário. Gostaria que o senhor me relatasse esse episódio. *
Foi um atrito meu com o Cândido. O embaixador russo tinha morrido afogado na Guanabara. E o secretário da embaixada era um senhor chamado Formin. Tiveram que deslocar o embaixador russo. Veio uma ambulância para levar o cadáver até o avião. E eles não admitiram entrar numa ambulância com as nossas cruzes, que nós usamos. E eu fiz um discurso na AL protestando, que se eu morresse no Kremlin teria que ser carregado numa ambulância com a estrela vermelha e tinha que engolir a estrela. Critiquei violentamente. Eis que esse Formin foi nomeado embaixador no Brasil. E veio visitar a Assembléia Legislativa. Quando ele saiu da AL eu fui para a tribuna me congratular com o fato dele ter falado daquele tribuna com o crucifixo ali atrás. Sem ter mandado tirar o crucifixo. Nisso o Cândido me chama a atenção, que eu não podia estar atacando autoridade. Mas eu não gostei daquela história e disse: sim , porque se ele pede para tirar o crucifico, Vossa Excelência tira. Aí fechou o tempo.

Houve briga física?
Os deputados lá embaixo começaram a brigar, um jogando cinzeiro no outro. Foi uma luta terrível. Interromperam a sessão. E eu discutia com o deputado Bruno Segalla, que me aparteava muito. Tendo sido interrompida a sessão, em função daquela balbúrdia, eu chego em casa e a televisão estava dando que eu tinha sido afastado da tribuna, por ordem do presidente. Quando em verdade estava tudo interrompido. Aí eu reuni a bancada, disse que aquilo era uma falsidade, que ninguém me tirou de tribuna nenhuma, tinha havido uma briga, todo mundo estava brigando. E que aquela inverdade eu queria que o Cândido reparasse. Aí o Cândido confirma a notícia.

Por que o senhor teria sido retirado do plenário por um segurança da Casa?
Eu teria chamado o deputado Bruno Segalla de filho desse, filho daquele, no que resultara a minha retirada da tribuna. Mas não. Eu posso ter chamado o cara lá embaixo, na hora da briga, mas jamais da tribuna.

E aí?
Para te encurtar a história, toda a Assembléia Legislativa me foi favorável. Ficou o Cândido sozinho. E a Mesa renunciou, desde o primeiro presidente, até o último secretário. O Cândido ficou sozinho na presidência. E dizia que dali ele não saía, que ninguém tirava. Elegeram uma nova Mesa e a nova mesa renunciou de novo. E o Cândido ficou sozinho. Quando eu vi que essa história ia longe demais, eu procurei o Cândido: vamos arrumar uma saída, porque a AL está fechada há 15 dias sem sessão. Acertamos com o Cândido, ele recuou um pouco, se elegeu a outra Mesa e a AL continuou a sua vida. Foi isso que aconteceu. Mantive as relações com o Cândido. O Cândido pode dizer o que quiser, mas certamente me respeita, como eu também o respeito.

Não dá para dizer então que naquele tempo não tinha briga...
Briga tinha. Mas naquele tempo se brigava diferente. As brigas eram mais em função de princípios arraigados. Não tinha uma futilidade que essas brigas do Congresso hoje tem. As coisas aconteciam porque aconteciam. Eu assisti brigas violentas. Do deputado Vilson Vargas atirar um cinzeiro num deputado do Partido Libertador. Não era uma Assembléia de santos, não. Mas era uma Assembléia de homens. Naquele tempo era bom, ninguém era imoral, não tinha batedor de carteira.

Naquela época existiam inimigos ou apenas adversários?
Árabe explica isso. Diz que inimigo é uma honra que a pessoa bem merece, porque ninguém atira pedra em árvore que não dá frutos. Você tendo um inimigo, está sempre se cuidando dele. Quando o inimigo é de certa monta, honra tanto nomeá-lo quanto a um amigo fiel. Por outro lado, eu nunca tratei as pessoas como inimigas. Eu apontava o erro e o remédio para salvar. Era um adversário, jamais um inimigo. Porque inimigos são também venenos subterrâneos. Inimigo não está nunca no adversário. Só a mediocridade teme a oposição e a trata de inimiga. Os grandes homens jamais temeram os seus opositores.

*O episódio ocoreu em junho de 1963. Segundo o jornal Diário de Notícias, na época, o ex-deputado Alexandre Machado (PSD) foi à tribuna criticar a passagem do embaixador soviético Andrei Formin pela Assembléia Legislativa. Outro parlamentar, Bruno Segalla (Aliança Republicana Socialista) discordou da opinião do pessedista. Após uma longa discussão entre os deputados, Machado teria ofendido a mãe de Segalla. E neste momento, o então presidente Cândido Norberto pediu à segurança que retirasse o deputado do PSD do plenário. Por conta disso, os componentes da Mesa Diretora que pertenciam ao PSD, UDN, PRP e PDC renunciaram aos cargos. Cândido Norberto passou mais de dez dias presidindo a Casa como único membro da Mesa, pressionado a renunciar pela maioria dos deputados.



Fonte:   Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul



Fotos Adicionais

 



Classificação Média dos Visitantes:    4.00 (até 5)
Número de votos: 2 Votos

Vote no artigo:
 Comentários dos visitantes (0)
escreva um comentário (NÃO é para contatar o site)
(Não foram encontrados comentários. O seu pode ser o primeiro!)




 
     

 


Mapa do Site | Termos de Uso | Política de Privacidade | Fale a Seus Amigos |

Copyright © 1995-2014, Infomídia Produções. Todos os direitos reservados.
Este é um site de divulgação sobre o Estado do Rio Grande do Sul. Quer contribuir? Sua contribuição será muito bem-vinda.