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As praias gaúchas recebem visitantes até da Groenlândia

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Page Views: 3244
Publicação: 08/09/2007


 Aves migratórias de locais tão distantes como a Groenlândia são grandes frequentadoras dos lugares mais tranqüilos das praias gaúchas. Outras vêm de mais perto, como a Argentina ou Uruguai. Outras, ainda, são moradoras fixas desses locais, ou usam as praias como local de repouso. Mas, para todas essas aves, o equilíbrio ecológico e a preservação das praias é vital.
 
 O Rio Grande do Sul tem uma importância ecológica mundial no que diz respeito às aves migratórias. O Estado tem uma fauna de aves costeiras avaliada em 33 espécies. Algumas delas se alimentam na praia, outras repousam na praia e se alimentam no mar. A maioria é migratória e utiliza a praia em uma das fases de sua migração. Poucas nidificam nela. É esse o caso do piru-piru, ave mais ou menos do tamanho de uma galinha, que é residente fixo das praias gaúchas durante todo o ano. Ele se alimenta dos moluscos que se encontram enterrados na beira do mar, e faz seu ninho nas dunas costeiras.
 
 Também freqüentadoras *íduas das praias gaúchas são as gaivotas. Existem duas espécies, a gaivota-cozinheira (que recebe esse nome porque anda sempre atrás das embarcações, quando nessas está sendo preparada comida) e a gaivota-de-cabeça-negra. A cozinheira, que é a maior das duas, faz seus ninhos nas ilhas em frente à costa do Uruguai e de Santa Catarina, e vem ao Rio Grande em busca de alimentos.
 
 A cabeça-negra nidifica nos banhados. Como essas aves são generalistas, isto é, comem o que encontrarem, seja carniça, restos de peixe ou moluscos, colaboram com a limpeza da praia. Elas estão presentes nas praias gaúchas durante todo o ano, mas na primavera são encontradas em menor número, porque é essa a época em que vão nidificar.
 
 Outro grupo que aparece com freqüência é o das Sternas, também chamadas de trinta-réis ou andorinhas-do-mar. No Rio Grande, seis espécies são mais comuns. Uma delas, a Sterna hirundo, vem do Hemisfério Norte. As outras cinco espécies são do Hemisfério Sul. A Sterna hirundo faz seu ninho nas regiões temperadas dos Estados Unidos e Canadá, durante os meses de maio a julho, quando é verão nessas áreas. Depois, migra para o Sul, atingindo desde o Sul do Brasil até a Patagônia.
 
 No Rio Grande ela aparece em grande número no verão, na Lagoa do Peixe, e na Ponta dos Pescadores (na Lagoa dos Patos). Em março e abril também aparece em grande número na Praia do Cassino, em Rio Grande.
 
 De uma maneira geral, as Sternas usam a praia para repouso, e se alimentam em outros locais. A Sterna hirundo pesca em alto mar. As outras cinco espécies do Hemisfério Sul pescam nas lagoas costeiras. Dessas cinco, apenas duas nidificam no Rio Grande do Sul, em locais no interior. A Sterna superciliaris (que é a menor delas, do tamanho de uma pomba) faz seus ninhos em praias de água doce, como as da Lagoa Mirim. No inverno ela se desloca para a praia, passando essa estação ali.
 
 Já a Sterna trudeaui também indifica no Estado, mas não se sabe onde. As outras três espécies nidificam mais ao Sul, em regiões do Uruguai e da Argentina, e também aparecem nas praias gaúchas no inverno.
 
 Enquanto as Sternas usam a praia para repouso, um outro grupo, o dos maçaricos de praia, a utiliza para repouso e alimentação. Os maçaricos encontram sua alimentação nos mariscos e crustáceos que obtêm na zona intermareal (entre as marés). Nesse grupo, chamam atenção as batuíras ou foge-maré (porque ficam correndo na frente das ondas), pela viagem épica que realizam.
 
 Aves de pequeno porte, as batuíras são migrantes que nidificam no Hemisfério Norte, na tundra ártica (no Canadá e Groenlândia). Elas fazem seus ninhos naquela região durante o verão (de maio a junho no Hemisfério Norte), que é muito curto, e depois migram para o outro lado da Terra. As batuíras-de-peito-vermelho fazem seus ninhos até 80 graus norte, em um raio de até mil quilômetros do Pólo Norte.
 
 Quando chega a época de migrarem, fazem longos vôos, em bandos, sem escalas, até o Sudeste dos Estados Unidos, onde ficam cerca de duas semanas comendo, para se recuperarem. Em seguida, partem para a Patagônia, onde passam o período quente do Hemisfério Sul (de outubro a março). Em março começam sua viagem de volta, e é então que visitam o Rio Grande.
 
 Nesse mês aparecem em grande número na praia do Cassino e em outros pontos do litoral gaúcho. Ficam aqui até o final de abril, quando voltam para a tundra. Esse período coincide justamente com o pico de abundância de jovens crustáceos e mariscos dos quais se alimentam. Nas praias gaúchas as batuíras-de-peito-vermelho trocam a chamada plumagem de repouso sexual (predominantemente cinza) pela plumagem nupcial, que é bem mais colorida, com o peito avermelhado.
 
 Como as penas são predominantemente compostas de proteína, a alimentação é um fator importante durante esse período de troca de plumagem. Depois que concluem a muda, as aves têm também que se alimentar bem, para garantir a nova etapa da viagem que farão. Acumulam então reservas de gordura subcutânea, principalmente nas regiões do peito e barriga. Essa gordura chega a um terço do peso total da ave. No final de março pesam, em média, 120 gramas. No final de abril, quando estão prontas para partir, atingem 180 gramas. Uma vez "reabastecidas", as aves levantam vôo em bandos, e se dirigem, voando dia e noite sem parar, para a costa Sudeste dos Estados Unidos, onde realizarão novo reabastecimento para ir para suas áreas de reprodução.
 
 Como essas aves se orientam para realizar trajetos tão longos? Não existe uma resposta definitiva, mas apenas hipóteses. Uma das mais prováveis é que têm a capacidade de realizar a navegação celestial, isto é, de se guiarem pelos astros. Outra é a de que poderiam sentir os campos magnéticos da Terra, utilizando-os como referência. Ou ainda se cogita que poderiam sentir os graus de força de atração da Terra, determinando assim a latitude.
 
 Outra questão freqüentemente levantada é a de como as aves sabem que está na hora de partir. Esse aspecto é essencial pois, nessa migração, há um cronograma que tem que ser estreitamente obedecido: se chegarem cedo demais, a tundra estará gelada e morrerão por não encontrar alimento. Se chegarem muito tarde, os filhotes não terão tempo de crescer antes do retorno. Mas, ao contrário do problema da orientação, existe uma resposta para esse aspecto. A determinação das épocas de iniciar viagem é feita pelo fotoperíodo, isto é, pela observação das horas de luz do dia. Assim, quando o dia tem determinada duração, as aves "sabem" que devem partir.


Fonte:  





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