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Capítulo 01 - A Salamanca do Jarau

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Page Views: 1816
Publicação: 01/10/2007

 (J. Simões Lopes Neto)

O Cerro do Jarau
A Salamanca

Era um dia...,

um dia, um gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais, estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia andava campeando um boi barroso.

E no tranquito andava, olhando; olhando para o fundo das sangas, para o alto das coxilhas, ao comprido das canhadas; talvez deitado estivesse entre as carquejas - a carqueja é sinal de campo bom -, por isso o campeiro às vezes alçava-se nos estribos e, de mão em pala sobre os olhos, firmava mais a vista em torno; mas o boi barroso, crioulo daquela querência, não aparecia; e Blau ia campeando, campeando...


Campeando e cantando:

“Meu bonito boi barroso.
Que eu já contava perdido.
Deixando o rastro na areia
Foi logo reconhecido.

“Montei no cavalo escuro
E trabalhei logo de espora;
E gritei - aperta, gente,
Que o meu boi se vai embora! -

“No cruzar uma picada,
Meu cavalo relinchou.
Dei de rédea para a esquerda,
E o meu boi me atropelou!

“Nos tentos levava um laço
De vinte e cinco rodilhas,
Pra laçar o boi barroso
Lá no alto das coxilhas!


“Mas no mato carrasquento
Onde o boi ‘stava embretado,
Não quis usar o meu laço,
Pra não vê-lo retalhado.

“E mandei fazer um laço
Da casca do jacaré,
Pra laçar meu boi barroso
Num redomão pangaré.

“E mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga,
Pra laçar meu boi barroso
Lá no passo da restinga.

“E mandei fazer um laço
Do couro da capivara
Pra laçar meu boi barroso
Nem que fosse a meia cara;

“Este era um laço de sorte,
Pois quebrou do boi a balda”...

..........................................
..........................................


No tranquito ia, cantando, e pensando na sua pobreza, no atraso das suas cousas.

No atraso das suas cousas, desde o dia em que topou - cara a cara! - com o Caipora num campestre da serra grande, pra lá, muito longe, no Botucaraí...

A lua ia recém saindo...; e foi à boquinha da noite...

Hora de agouro, pois então!...

Gaúcho valente que era dantes, ainda era valente, agora; mas, quando cruzava o facão com qualquer paisano, o ferro da sua mão ia mermando e o do contrário o lanhava...

Domador destorcido e parador, que por só pabulagem gostava de paletear, ainda era domador, agora; mas, quando gineteava mais folheiro, às vezes, num redepente, era volteado...

De mão feliz para plantar, que lhe não chochava semente nem muda de raiz se perdia, ainda era plantador, agora; mas, quando a semeadura ia apontando da terra, dava a praga em toda, tanta, que benzedura não vencia...; e o arvoredo do seu plantio crescia entecado e mal floria, e quando dava fruta, era mixe e era azeda...

E assim, por esse teor, as cousas corriam-lhe mal; e pensando nelas o gaúcho pobre, Blau, de nome, ia, ao tranquito, campeando, sem topar com boi barroso.

De repente, na volta duma reboleira, bem na beirada dum boqueirão, sofrenou o tostado...: ali em frente, quieto e manso, estava um vulto, de face tristonha e mui branca.

Aquele vulto de face branca... aquela face tristonha!...

Já ouvira falar dele, sim, não uma nem duas, mas muitas vezes...; e de homens que o procuravam, de todas as pintas, vindos de longe, num propósito, para endrôminas de encantamentos..., conversas que se falavam baixinho, como num medo; pro caso, os que podiam contar não contavam, porque uns, desandavam patetados e vagavam por aí, sem dizer cousa com cousa, e outros calavam-se muito bem calados, talvez por juramento dado...

Aquele vulto era o santão da salamanca do cerro.

Blau Nunes sofrenou o cavalo.

Correu-lhe um arrepio no corpo, mas era tarde para recuar: um homem é para outro homem!...

E como era ele
quem chegava ele é que tinha de louvar; saudou:

- Laus’Sus-Cris’!...

- Para sempre, amém! disse o outro, e logo ajuntou: O boi barroso vai trepando cerro acima, vai trepando... Ele anda cumprindo o seu fadário...

Blau Nunes pasmou do adivinho; mas repostou:

- Vou no rastro!...

- Está enredado...

- Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo, até à boca preta da furna do cerro...

- Tu... tu, paisano, sabes a entrada da salamanca?...

- É lá?... Então, sei, sei! A Salamanca do cerro do Jarau!... Desde a minha avó charrua, que ouvi falar!...

- O que contava a tua avó?

- A mãe da minha mãe dizia assim:



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