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Capítulo 05 - A Salamanca do Jarau

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Page Views: 1074
Publicação: 01/10/2007

 (J. Simões Lopes Neto)
 

 (continuação)
 
 E quando, sem mais esperança nos homens nem no socorro do céu, chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada, dentro do meu sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano amor..., como em rocha dura serpenteia às vezes um fio de ouro alastrado e firme, como uma raiz que não quer morrer!...
 
 E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito, subiu aos olhos feita em lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra saudade rastreada sem engano...; parece, porque nesse momento um ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu, sacudida, tanto, de as árvores desprenderem os seus frutos, de os animais estanquearem-se, medrosos, e de os homens caírem de cóc’ras, agüentando as armas, outros, de bruços, tateando o chão...
 
 E nas correntezas sem corpo, da ventania, redemoinhavam em chusma vozes guaranis, esbravejando se soltasse o padecente...
 
 Para trás do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e folhas secas levantadas, continuava o sino dobrando a finados... dobrando a finados!...
 
 Os santos padres, pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha alma: em roda, boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados de couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra amarela com dois leões vermelhos e a coroa d’el-rei brilhando em canutilho de ouro...
 
 A lágrima do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o claro ver: e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte da serra, tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e sobrava para os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava junto, empastalhado e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que se encrespava e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão...
 
 A menos de braça, estava o carrasco atento no garrote!
 
 Mas os olhos do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses viam o corpo bonito, lindo, belo da princesa moura, e recreavam-se na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em mil vidas de homem outros se não viram!...
 
 E por certo por essa força que nos ligava sem ser vista, como naquele dia em que o povo sesteava e também nada viu.., por força dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que eu morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana...
 
 O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pela quincha dos ranchos, sem queimá-los...; as crianças de peito soltaram palavras feitas, como gente grande...; e bandadas de urubus apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o esfregar das penas contra o vento..., a contradançar, afiados para uma carniça que ainda não havia porém que havia de haver...
 
 Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram, como num propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha morte, por ter tido amores com mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira...
 
 Rolou, então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a saudade destilara.
 
 Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e monstruoso...: e rasgou-se cerce em um sangão medonho, entre largo e fundo... e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá, eu vi e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente, fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr, estrombando os barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se, espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas tormentosas!
 
 A gente levantou pro céu um vozear de lástimas e choros e gemidos.
 
 - Que a Missão de S. Tomé ia perecer... e desabar a igreja... a terra expulsar os mortos do cemitério... que as crianças inocentes iam perder a graça do batismo... e as mães secar o leite... e as roças o plantio, os homens a coragem...
 
 Depois um grande silêncio balançou no ar, como esperando...
 
 Mas um milagre se fez: o Santíssimo, de si próprio perpassou a altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz Bendita!... O padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e trôpego marchou para o povoado: os acólitos seguiram, e o alcaide, os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer, porque ventos, urubus e estrondos se humilharam, fenecendo, dominados!...
 
 Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmo ferros posto.
 
 Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas que iam minguando, em retirada... mas também ouvindo com os ouvidos do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu rosto viam a consolação da graça de Maria Puríssima que se alonjava... mas os olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e perfumando as santidades... mas o faro do pensamento sorvia a essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror, amarga, de doença... mas a língua do pensamento saboreava os beijos da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas... mas o tato do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em fúria...
 
 E tanto como o povo ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações para alcançar a clemência divina, ia eu começando o meu fadário, todo dado à teiniaguá, que me enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa moura, pelo seu amor de mulher, que vale mais que destino de homem!...
 
 Sem peso de dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no corpo, sem peso de remorsos na alma passei o rio para o lado do Nascente. A teiniaguá fechou os tesouros da outra banda e juntos fizemos então o caminho para o Cerro do Jarau, que ficou sendo o paiol das riquezas de todas as salamancas dos outros lugares.
 
 Para memória do dia tão espantoso lá, ficou o sangão rasgado na baixada da cidade de Santo Tomé, desde o tempo antigo das Missões.


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