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Capítulo 07 - A Salamanca do Jarau

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Page Views: 1341
Publicação: 01/10/2007

 (J. Simões Lopes Neto)
 

 (continuação)
 
 Blau Nunes foi andando.

 
 Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa da enrediça da ramaria que se cruzava nela; pra o fundo era tudo escuro...
 
 Andou mais, num corredor dumas braças; mais, ainda; sete corredores nasciam deste.
 
 Blau Nunes foi andando.
 
 Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu. Sempre escuro. Sempre silêncio.
 
 Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.
 
 Numa cruzada de carreiros sentiu ruído de ferros que se chocavam, tinir de muitas espadas, seu conhecido.
 
 Por então o escuro ia já mudando num luzir de vagalume.
 
 Grupos de sombras com feitio de homens peleavam de morte; nem pragas nem fuzilar d’olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas iam talhando umas nas outras, no silêncio.
 
 Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto de face branca e tristonha - Alma forte, coração sereno...
 
 E meteu o peito por entre o espinheiro das espadas, sentiu o corte delas, o fino das pontas, o redondo dos corpos... mas passou, sem nem olhar aos lados, num entono, escutando porém choros e gemidos dos peleadores.
 
 Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.
 
 Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o rangido dos cabrestilhos das suas esporas.
 
 Blau Nunes foi andando.
 
 Andando numa luz macia, que não dava sombra. Enredada como os caminhos dum cupim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos; e ao desembocar do em que vinha, Justo num cotovelo dele, saltaram-lhe aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente, patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando numa fúria...
 
 E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras roçarem-lhe o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros que pra trás iam ficando e morrendo sem eco...
 
 As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas que, certo, o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros, sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante... adiante...
 
 A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela...
 
 Blau Nunes foi andando.
 
 Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de ossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos outros, muitos, derreados, como numa preguiça; pelo chão caídas, partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando, tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pé em passo de dança, alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado, outras em saracoteio...
 
 Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal da cruz;... porém - alma forte, coração sereno!
 
 - meteu o peito e passou entre as ossadas, sentindo o bafio que elas soltavam das suas juntas bolorentas.
 
 As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra vez os ombros...
 
 Blau Nunes foi andando.
 
 O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem aumentar a respiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de passar por uma como porta dele, e aí dentro era um jogo de línguas de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha de nhanduvai; e repuxos d’água, saídos das paredes, batiam nele e referviam, chiando, fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e fogos, que era uma temeridade cortar aquele turbilhão...
 
 Outra vez ele meteu o peito e passou, sentindo o mormaço das labaredas.
 
 As mãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer - muito bem! -
 
 Blau Nunes foi andando.
 
 Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no silêncio como que um peso de arrobas; a claridade mortiça, porem, já se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em sua frente e caminho, um corpo enroscado, sarapintado e grosso, batendo no chão uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.
 
 Era a boicininga, guarda desta passagem, que levantava a cabeça flechosa, lanceando o ar com a língua de cabelos preta, firmando no vivente a escama dos olhos, luzindo, preto, como botões de veludo...
 
 Das duas presas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de sobreano, pingava uma goma escura, que era a peçonha sobrante por um muito jejum de mortandade, lá fora...
 
 A boicininga - a cascavel amaldiçoada - toda se meneava, chocalhando os guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua, como por prova...
 
 Uma serenada de suor minou na testa do paisano... porém ele meteu o peito e passou, vendo, sem olhar, a boicininga altear-se e descair, chata e tremente... e passou, ouvindo o chocalho da que não perdoa, o silbido da que não esquece...
 
 E logo então, que era este o quinto passo da valentia que vencera sem temer - de alma forte e coração sereno - logo então as mãos voantes anediaram-lhe o cabelo, palmearam-lhe mais chegadas os ombros.
 
 Blau Nunes foi andando.
 
 Desembocou num campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce que ele não conhecia; em toda a volta árvores enfloradas e estadeando frutos; veadinhos mansos; capororocas e outro muito bicharedo, que recreava os olhos; e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta de samambaias, um olho-d’água, que saía em toalha e logo corria em riachinho, pipocando o quanto-quanto sobre areão solto, palhetado de malacachetas brancas, como uma farinha de prata...
 
 E logo uma ronda de moças - cada qual que mais cativa! - uma ronda alegre saiu dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele Blau, gaúcho pobre, que só mulheres de anáguas resvalonas conhecia...
 
 Vestiam-se umas em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas, outras na própria cabeleira solta...; estas chegavam-lhe à boca caramujos estrambóticos, cheios de bebida recendente e fumegando entre vidros frios, como de geada; dançavam outras num requebro marcado como por música... outras lá acenavam-lhe para a lindeza dos seus corpos, atirando no chão esteiras macias, num convite aberto e ardiloso...
 
 Porém ele meteu o peito e passou, com as fontes golpeando, por motivo do ar malicioso que o seu bofe respirava...
 
 Blau Nunes foi andando.
 
 Entrou no arvoredo e foi logo rodeado por uma tropa de anões, cambaios e cabeçudos, cada qual melhor para galhofa, e todos em piruetas e mesuras, fandangueiros e volantins, pulando como aranhões, armando lutas, fazendo caretas impossíveis para rostos de gente...
 
 Porém o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar de riso no canto dos olhos...
 
 E com este, que era o último, contou os sete passos das provas.
 
 E logo então, aqui, surdiu-lhe em frente o vulto de face tristonha e branca; que, certo, lhe andara nas pisadas, de companheiro - sem corpo - e sem nunca lhe valer nos apuros do caminho; e tomou-lhe a mão.
 
 E Blau Nunes foi seguindo.
 
 Por detrás de um cortinado como de escamas de peixe-dourado, havia um socavão reluzente. E sentada numa banqueta transparente, fogueando cores como as do arco-íris, estava numa velha, muito velha, carquincha e curvada, e como tremendo de caduca.
 
 E segurava nas mãos uma varinha branca, que ela revirava e tangia, e atava em nós que se desfaziam, laçadas que se deslaçavam e torcidas que se destorciam, ficando sempre linheira.
 
 - Cunhã, disse o vulto, o paisano quer!
 
 - Tu, vieste; tu, chegaste; pede, tu, pois! respondeu a velha.
 
 E moveu e ergueu o corpo magro, dando estalos nas juntas e levantou a varinha para o ar: logo o condão coriscou por sobre ela uma chuva de raios, mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas cairia. E disse:
 
 - Por sete provas que passaste, sete escolhas dar-te-ei... Paisano, escolhe! Para ganhar a parada em qualquer jogo;... de naipes, que as mãos ajeitam, de dados, que a sorte revira, de cavalos, que se cotejam, do osso, que se sopesa, da rifa... queres?
 
 - Não! disse Blau, e todo o seu parecer foi se mudando num semblante como de sonâmbulo, que vê o que os outros não vêem.., como os gatos, que acompanham com os olhos cousas que passam no ar e ninguém vê...
 
 - Para tocar a viola e cantar... amarrando nas cordas dela o coração das mulheres que te escutarem..., e que hão de sonhar contigo, e ao teu chamado irão - obedientes, como aves varadas pelo olhar das cobras -, deitar-se entregues ao dispor dos teus beijos, ao apartar dos teus braços, ao resfolegar dos teus desejos... queres?
 
 - Não! respondeu a boca, por mandado só do ouvido...
 
 - Para conhecer as ervas, as raízes, os sucos das plantas e assim poderes curar os males dos que tu estimares ou desfazer a saúde dos que aborreceres;... e saber simpatias fortes para dar sonhos ou loucura, para tirar a fome, relaxar o sangue, e gretar a pele e espumar os ossos,... ou para ligar apartados, achar cousas perdidas, descobrir invejas...; queres?
 
 - Não!
 
 - Para não errar golpes - de tiro, lança ou faca - em teu inimigo, mesmo no escuro ou na distância, parado ou correndo, destro ou prevenido, mais forte que tu ou astucioso...; queres?
 
 - Não!
 
 - Para seres mandão no teu distrito e que todos te obedeçam sem resmungos;... seres língua com os estrangeiros e que todos te entendam;... queres?
 
 - Não!
 
 - Para seres ricaço de campo e gado e manadas de todo o pêlo;.., queres?
 
 - Para fazeres pinturas em tela, versos harmoniosos, novelas de sofrimentos, autos de chocarrice, músicas de consolar, lavores no ouro, figuras no mármore;... queres?
 
 - Não!
 
 - Pois que em sete poderes te não fartas, nada te darei, porque do que te foi prometido nada quiseste. Vai-te!
 
 Blau nem se moveu; e, carpindo dentro em si a própria rudeza, pensou no que queria dizer e não podia e que era assim:
 
 - Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim... Eu te queria a ti, teiniaguá encantada!...
 
 Mas uma escuridão fechada, como nem noite a mais escura dá parelha, caiu sobre o silêncio que se fez, e uma força torceu o paisano.
 
 Blau Nunes arrastou um passo e outro e terceiro; e desandou caminho; e quanto ele andara em voltas e contravoltas, em subidas e descidas, tanto em direitura foi bater na boca da furna por onde havia entrado, sem engano.
 
 E viu atado e quieto o seu cavalo; em roda as mesmas restingas, ao longe os mesmos descampados mosqueados de pontas de gado, a um lado o encordoado das coxilhas, a outro, numa aberta entre matos um claro prateado, que era água do arroio.
 
 Memorou o que tinha acabado de ver e de ouvir e de responder; dormido, não tinha, nem susto lhe tirara o entendimento.
 
 E penso que tendo tido oferta de muito não lograra nada por querer tudo;... e num arranco de raiva cega decidiu outra investida.
 
 Voltou-se para entrar de novo... mas bateu com peito na parede dura do cerro. Terra maciça, mato cerrado, capins, limos... e nenhuma fresta, nem brecha nem buraco, nem furna, caverna, toca, por onde escorresse um corpinho de guri, quanto mais passasse porte de homem!...
 
 Desanimado e penaroso, compôs o cavalo e montou; e ao dar de rédea apareceu-lhe pelo lado de laçar o sacristão, o vulto de face branca e tristonha, que tristemente estendeu-lhe a mão, dizendo:
 
 - Nada quiseste: tiveste a alma forte e o coração sereno, tiveste, mas não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua!... Não te direi se bem fizeste ou mal. Mas como és pobre e isso te aflige, aceita este meu presente, que te dou. É uma onça de ouro que está furada pelo condão mágico; ela te dará tantas outras quantas quiseres, mas sempre de uma em uma e nunca mais que uma por vez; guarda-a em lembrança de mim!
 
 E o corpo do sacristão encantado desfez-se em sombra na sombra da reboleira...
 
 Blau Nunes, meteu na guaiaca a onça furada, e deu de rédea.

 
 O sol tinha cambado e o Cerro do Jarau já fazia sombra comprida sobre os bamburrais e restingas que lhe formavam assento.


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