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Capítulo 10 - O Chimarrão e os Gaúchos

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Publicação: 01/10/2007

 

Cerremos as pálpebras e tentemos trazer ao mundo da imaginação a figura de um gaúcho. Logo hão de surgir os contornos de um cavaleiro imponente, vestes coloridas, montado num corcel fogoso, olhos postos no sem-fim da planura. Mas tentemos, agora, subtrair da cena aquele cavalo em atitude sobranceira. E nos criaremos então um embaraço: como vislumbramos, no vulto imaginado, um gaúcho autêntico, se lhe tiramos o complemento indispensável? Como afastar do campeiro do sul o seu “pingo” escarceador, sem o risco de ferir-lhe a autenticidade?

Mas eis que tudo se resolve: aqueçamos a água da chicolateira ao calor do fogo-de-chão, retiremos um pouco de erva-mate do saquinho resguardado no fundo da mala-de-garupa, e alcancemos ao gaúcho a cuia do chimarrão.

No mesmo instante, há de fulgir novamente o seu aspecto típico.

E devemos notar que, mais do que o próprio “pingo”, o mate-amargo constitui a principal característica do crioulo rio-grandense. O gaúcho poderá deixar o pago, em busca do traiçoeiro brilho das cidades; poderá substituir o mugido melancólico da tropa pela ensurdecedora azáfama das fábricas; poderá se despedir da chinoca de longas tranças, vender o cavalo e os arreios, abandonar o rancho... mas jamais se apartará dos seus avios do chimarrão... E que os tempos corram, trazendo o progresso! Que os bretes e armados se estendam tanto e tanto que as lidas da pecuária venham a se transfigurar por completo! Que os cavalos crioulos não mais relinchem na coxilha, que a santa-fé dos ranchos ceda lugar ao colorido das telhas francesas, e que o umbú frondoso - teto de mil gerações - tombe por terra! Tudo poderá evoluir, transmudando a vida pitoresca dos pampas. Mas sempre haverá o chimarrão, alimentando as tradições gaúchas, recordando as arrancadas do passado, levando de boca em boca a seiva pátria.

Na zona rio-grandense em que vive o gaúcho propriamente dito, toda a vida da querência - as lidas do campo, as tropeadas e pousos os amores singelos e os ódios - tudo isso é regado pelos sorvos da erva-mate. E, numa estância, o dia sempre se inicia com o “amargo”...

Não é a luz bem nascida
Já eu junto do fogão
Me preparo para a lida
Tomando o meu chimarrão...
É ele o constante amigo
Que vem logo ter comigo
Do dia ao primeiro alvor.
Da mente as névoas consome,
Mata a sede, ilude a fome
E a todo ser dá vigor.
(Assis Brasil).


Na verdade, ainda dormiam os campos nos braços da noite - silêncio sepulcral apenas cortado, de quando em vez, pelos quero-queros alertando a solidão - quando o peão caseiro abrindo com as alpargatas dois caminhos no orvalho esbranquiçado, se dirigira ao galpão, para reavivar o fogo esmaecido. E quando a peonada levantou, ao apontarem as barras do dia, o primeiro aperto de mão foi à cuia do mate-amargo. Muitas vezes, somente horas mais tarde, já cumpridas as primeiras tarefas, é que os gaúchos hão de voltar “as casas”; a mesa, então, estará preparada para o café, pois há muito as chinocas da estância haviam saído da mangueira com o leite da brasina espumando nas vasilhas.

Mas o dia se iniciara com o “amargo”. E com ele também se encerraria...
Na estância, depois da janta
co’o rasto linda na garganta
do gostito do feijão,
a peonada se entretia
contando os causos do dia
na roda do chimarrão...
(Vargas Netto).


É então que os campeiros alcançam o prêmio das canseiras do dia. Em torno do fogo, com a cuia a passar de mão em mão - acocorados uns, outros sentados em cepos de cortiça ou caveiras de bovinos - vão recordando as façanhas do rodeio, a rodada do Jango, do pealo de cucharra que o Neco largou prá cima do tourito pampa fazendo-o cantar o lombo de encontro ao solo após a caravolta completa. O gaúcho, geralmente calado todo o dia, já que a lida com o gado lhe toma toda a atenção, se transforma no estabanado contador de aventuras quando sente a quentura do mate acariciar-lhe a garganta. Todo o seu silêncio se queima, então, nas brasas, e já se ouvem os casos, contraponteados por “gargalhadas de galpão” tonitroantes, transbordantes de vida e de alegria.

Enquanto a gente mateia
E acende um pito palheiro,
Quanta história vem, ligeiro,
À roda do chimarrão!
Se a cousa é mesmo de graça
Se solta cada risada,
Como gaita debochada
Em polca de relação
(Eugênio Severo)


Na roda do amargo, mais do que nunca, o gaúcho sente agitar-se a sua alma abarbarada. Aquecido pelo calor das brasas, ressurge o gênio das coxilhas. Naquele convívio íntimo dos homens, abrem-se os corações no relato das emoções sentidas. E as histórias de amor desfilam, entremeadas dos episódios guerreiros de 23, interrompidas pelo relato da última carreira, abrilhantadas pelas trovas de improviso ao compasso das violas. E os homens riem, felizes. O corpo sacode, na gargalhada gostosa, e a água quente, derramando da cuia, escalda as mãos do gaúcho, dando ensejo a novas gargalhadas, mais gostosas ainda. E qual um cachimbo da paz, o chimarrão vai selando amizades, vai enovelando as almas simples dos homens do campo, vai aquecendo ao fogo-de-chão o espírito humanitário e cavalheiresco da gente pampeana.

Quando a cordeona dá o último acorde, e o capataz se recolhe, lembrando à peonada que a “campereada de amanhã vai ser de arder caracu”, ainda é o fogo da roda do chimarrão que, num derradeiro luzir, vai dizer que o dia já findou na estância.

Se, entre os homens de uma mesma fazenda, o mate muito contribui para firmar-se o espírito de solidariedade, não menos digna é a sua tarefa de simbolizar a hospitalidade gaúcha.

Chegai a uma propriedade rural do Rio Grande. Mal a cachorrada, cansada de latir, fica gemendo ao redor do forasteiro, já alguém, percebendo a visita, gritará o “Apeie-se e passe”. A porta da casa se abre de par em par, e julgareis ouvir das paredes que “este rancho é seu”. O primeiro cuidado dos bons donos da casa será, então, brindar o viandante com um amargo recém cevado.

E a cuia, seio moreno
que passa de mão em mão,
traduz no meu chimarrão,
em sua simplicidade,
a velha hospitalidade
da gente do meu rincão.
(Glaucus Saraiva

Os “causos” se estenderão pela tarde afora, e ninguém afirmaria que aquela amizade se iniciara há pouco. E quando o sol, alongando a sombra das figueiras, afirmar que já é hora de partir, ainda ouvireis, significando “fique mais um pouco”, “dê-nos por mais tempo a alegria de sua presença”, a tradicional frase gaúcha:

- Tome mais um mate...

E quando já estiverdes “de pé no estribo”, pronto para seguir viagem, mais uma vez gritará a hospitalidade gaúcha no sorriso tímido do gauchinha vos ofertando o “mate do estribo”.

Dissemos acima que nada mais acertado do que o chimarrão, para simbolizar o cavaleiro dos pampas. Na verdade, vemos o mate acompanhando todos os passos da gauchada.

Nas tropeadas, quando a noite desce e os campeiros ficam esperando que o gado se acomode, é o amargo que aviva as conversas do serão. Abandonado nas divisas da estância, o alambrador terá por único companheiro o chimarrão. À sombra do umbu frondoso - mãos trêmulas ainda firmes no manejo dos tentos - encontraremos o velho trançador gaúcho alentando o seu espírito creacionista com os goles do mate-amargo. E o primeiro gesto do carreteiro, ao desprender os bois, no pouso, é acender o fogo para o chimarrão. Ai dele, porém, se, comodista, quiser aproveitar os carvões que restaram do fogo do último carreteiro! Todos sabem que a fumaça do “Fogo Morto” traz em si um manancial de desgraças...

Nas horas de tédio ou de alegria, nos dias felizes ou desditosos, no rancho ou no campo aberto, será o chimarrão o mais fiel companheiro do gaúcho. Para acalmar a canseira, nada melhor do que ele. Nem nada melhor do que uma cuia de mate para “sentar o bóia”, quando o churrasco ficou “pesando” no estômago. E, tirando nó-nas-tripas ou doença complicada, dessas de chamar médico, qualquer mal se entrega a uns goles de erva-mate.

Se alguma doença prostá-lo procura,
Não quer o gaúcho provar a mistura.
De exóticas troca.:.. rejeita a injeção...
Pois ele bem sabe que a força e a saúde
Dependem apenas de um chá e da virtude
Que encerra uma cuia do bom chimarrão...
(Barcelos Penna).


Com esse “tratamento” resiste o gaúcho à doença. Ei-lo novamente esporeando o pingo pelas coxilhas, distribuindo saúde nos gritos da tropeada ou medindo suas forças com as do animal selvagem nos malabarismos da doma.

Mas um dia - “por boa que seja a erva não há mate que não se vire” - o campeiro perde toda aquela riqueza que ele tanto estima: a querência. Novos rumos são traçados à sua vida, e ele, atando a mala-do-poncho e acenando um “até a volta” sentido ao companheiro, ruma a pagos distantes, seguindo a trotezito pela estrada, tentando acalmar os corcovos do coração no assobio alegre de um chotes.

E o tempo corre, aguçando cada vez mais as esporos da saudade. Deitado nos pelegos, o gaúcho passará noites inteiras de olhos fitos no vácuo, recordando as cousas da querência. As vozes dos amigos ainda cantam em seus ouvidos; e as águas lamurientas do rio Camaquã; e a gaita roncadeira do Zé Manuel animando os bailes do seu Morais e o riso cristalino da gauchinha - riso que brinca naqueles lábios vermelhos com polpa de pitanga, naqueles olhinhos negros como guabiju. Tudo mudou... Tudo, menos o sabor amigo do chimarrão, seu confidente, seu relicário de saudades...

Na tristeza
Da ausência
Da querência,
Vais o mel da esperança distilando...

Mateando, o tempo vai passando
Mais sereno, ameno;
Mas então
Até pareces doce,
Chimarrão!
(Francisco de Magalhães).


Mas Deus é grande... e um dia o gaúcho volta ao pago! O galpão se enche de risos e abraços, a gaita rompe numa rancheira pulada, homenageando o amigo que retornou ao rincão, e a cuia trabalhada a fogo será a taça rústica no voto de boas-vindas. Sorvendo a erva querida, o campeiro ficará sabendo tudo o que houve nos pagos durante os anos de ausência. E será o chimarrão, também, o padroeiro do encontro do gaúcho com a sua chinoquita linda, que todo aquele tempo ficara penando de saudade.

Num canto da varanda, sozinhos, eles... “tomam mate:
Desculpa boa prá eu apertar os dedos da chinoca
Quando, horas a fio
Ele me alcança esse amargo, que é tão doce!
Ele é o melhor protetor dos namoros do pago...
Quanto beijo transmite sem querer!...
Quando ela toma um gole antes de mim,
E deixa a boca como uma flor colorada
Na haste branca da bomha,
E fica assim... sem dizer nada...
Depois, que mate bom!
(Vargas Netto)



E assim, toda a vida do gaúcho é pontilhada pelos sorvos do amargo. A primeira vez que ele prova o mate - há tanto tempo, era então um pinguinho de gente! - foi num dia em que a peonada partira para o campo, e deixara a cuia abandonada ao lado dos tições, ainda com a cevadura utilizada há pouco. A erva estava lavada, a água fria, e até um pouco de cinza se intrometera na boca da bomba. Mas como aquele mate era gostoso! Pagara a pena provar!... Depois, foi a mamãe bondosa que - soprando na bomba para não queimá-lo - lhe deu um pouco de mate doce, gostoso como suco de guabiroba madura. E uma noite - já com corpo de gente e entonado como os “grandes” - lhes alcançaram a cuia na roda da peonada. Desde aí, para o resto da existência, o gaúcho terá por complemento inseparável a erva-mate. E quando um dia, pela primeira vez ele sentir a proximidade da morte, há de surgir-lhe à mente tudo o que de bom irá perder. O pingo, o rancho, a mulher e a criançada, a ponta de gado, o cusco oveiro companheiro de mil tropeadas, a cuia flor-de-porongo... E, com os olhos postos no céu, o gaúcho fará o seu mais sagrado pedido:


Deus Nosso Senhor me atenda,
eu peço com devoção:
cair com cuia na mão
quando chegar a hora extrema,
sussurrando a prece em poema
à bomba do chimarrão...
(Waldomiro Souza)



(Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Você pode encontrar as obras de Barbosa Lessa em qualquer livraria gaúcha, mas principalmente no Martins Livreiro, na Rua Riachuelo, em Porto Alegre)



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