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Capítulo 03 - Os Escravos dos Ervais

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Publicação: 01/10/2007


 Um dos primeiros atos governamentais de Irala foi dividir o território conquistado em diversas porções, a que deu o nome de “encomiendas”. Eram elas distribuídas entre os conquistadores, delas fazendo parte os índios que as povoavam; as terras tomavam-se propriedade dos “encomenderos”, e os índios eram obrigados a trabalhar para o proprietário, sem mais retribuições do que alguns trapos com que se acobertassem das Intempéries. Este trabalho consistia principalmente no amanho da terra, nas colheitas, e na busca de frutas e caça para a mesa dos espanhóis.
  
  Com a descoberta da “caá”, porém, se transmudou o papel doe serviçais indígenas. Todo o Paraguai se movimentara buscando as riquezas da erva-mate; as selvas do Guaíra, do Maracaju, do Ivaí e Alto Uruguai se abriram ao facão dos desbravadores, e a fartura começou a invadir os lares dos “encomenderos”. O uso do mate se estendeu às margens do Prata, conquistou Buenos Aires, transpôs os Andes e subiu a Potosi enriquecendo os donos do Paraguai. Em pouco tempo Assunção duplicava em população e tamanho. E em pouco tempo as fortunas se agigantavam nas casas comerciais da colônia. Mas todo aquele progresso foi obra do suor e do sangue dos indígenas. Pois se até aquela época relativamente poucos haviam sido os serviços atirados aos braços dos guaranis, com a correria aos ervais os espanhóis se viram inteiramente cegados pela ambição, e velhos, mulheres e crianças - toda a nação guarani - curvaram-se à chibata dos capatazes.
  
  As expedições aos ervais do Maracaju e do Guaíra duravam no mínimo um ano - 100 léguas por pântanos e banhadais - até o retorno a Assunção. Um ano de sacrifícios, doenças e privações. Muitas vezes caravanas inteiras eram dizimadas pelas moléstias tropicais. E mesmo quando as epidemias não vinham, havia o que substituísse a sua ação mortífera. Em primeiro lugar a fome, pois às vezes as semanas se sucediam sem que os índios tivessem outro alimento que não fungos e raízes. Depois, as serpentes e feras do alto-sertão, a atacarem traiçoeiramente os ervateiros, um dia aqui, daí a um mês léguas adiante, num trabalho irregular mas contínuo, que pouco a pouco ia semeando o terror na expedição. Aliando-se a estes mortos as vítimas do cansaço, da insolação, da loucura, e ainda os que não resistiam aos castigos dos “mayordomos”, tem-se uma idéia de quantos guaranis ficavam para sempre atirados ao fundo das selvas, e de que era uma rara ventura a volta a Assunção. Ainda assim os sobreviventes retornavam quase tão pobres como tinham ido, mais fracos do que nunca, e sem forças para resistir à morte, logo que a primeira febre baixasse sobre as povoações. E quantos, ao voltar, encontravam o rancho vazio? Sim, pois as esposas doe ervateiros necessitavam de pão para matar a fome dos “curumins”, e este pão se encontrava farto na casa da soldadesca desabotinada...
  
  Ao despontar o século XVII, quando a erva-mate dominava os hábitos e a economia da colônia espanhola, a Serra do Maracaju era um viveiro de párias. Foi nessa época que o Pe. Ruiz de Montoya visitou aquela região ervateira - a mais concorrida de todas, pela fartura das erveiras. E é assim que, em sua “Conquista Espiritual”, aquele operoso jesuíta paraguaia nos descreve em que cenário trágico se desenrolava a História do Mate:
  
  “Testemunha sou de haver visto, por aqueles matos, ossuários bem grandes de esqueletos de índios, que causam lástima a quem os vê, e punge o coração o saber que a maioria deles morreu no paganismo, desgarrados por aquelas selvas em busca de sevandijas, sapos e cobras, e quando nem disso encontram, bebem muita daquela erva, pelo que se lhes incham o pés, pernas e ventre, mostrando o rosto somente os ossos, a polidez, a imagem da morte”.
  
  Continua Montoya em sua dissertação, falando dos martírios do retorno à capital, os índios carregando às costas a colheita de erva, por léguas e léguas, em “rairos” de 50, 60 quilos: “... e não faltaram curiosos que fizessem a experiência, pondo numa balança o índio e na outra sua carga, sem que a do índio, nem com muitas libras postas em seu auxílio, pudesse vencer à balança da pesada carga. Quantos ficaram mortos, recostados sobre suas cargas! E sentir o espanhol mais não ter quem lha carregue, do que a morte do pobre índio...”
  
  
Enfim, destroçava-se a nação guarani sob o império da Erva-Mate.

 

 
 (Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Você pode encontrar as obras de Barbosa Lessa em qualquer livraria gaúcha, mas principalmente no Martins Livreiro, na Rua Riachuelo, em Porto Alegre)


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