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Publicação: 01/10/2007
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Quando, em 1638, os bandeirantes invadiram as Missões do Guaíra - de que resultou o extermínio das reduções jesuíticas e o aprisionamento de grande parte da população indígena - foram eles presa da mesma curiosidade que no século anterior tomara os soldados de Irala, em relação à erva-mate. E se esta curiosidade lembrava a havida por ocasião da descoberta da erva pelos espanhóis, as conseqüências de uma e outra foram idênticas: quando os desbravadores voltaram a S. Vicente, a bebida guarani invadiu, vitoriosa, os lares daquela capitania.
No Paraná e em Santa Catarina, a abundância dos ervais nativos propiciou uma pronta generalização do uso do mate; também em Minas esta bebida logo se espalhou, pois os tropeiros que vinham buscar mulas nos Campos Gerais retornavam à sua terra com grandes carregamentos de erva; e a obra se completou com o desbravamento dos sertões do Mato Grosso, onde abundavam os grupamentos naturais de erva-mate, e onde a bebida com ela feita era popular entre os selvícolas, com a denominação de “congõin” - o que alimenta. Aliás, foi este termo, de origem tupi, que predominou entre, as populações brasileiras, transmudado em “congonha”.
O sucesso, que, no Brasil, coroava o aparecimento do mate - cujas propriedades tônicas e alimentícias eram objeto de calorosos comentários - despertou o cuidado do governo metropolitano. Tanto assim que, em 1720, o governador da capitania de S. Paulo recebia a seguinte missiva real:
“D. João por graça de Deus Rey de Portugal e dos Algarves daquem e dalem mar em África senhor de Guiné, etc. - Faço saber a vos Rodrigo Cezar de Menezes Governador, e capitão general da Capitania de São Paulo, que aqui se tem notícia que nas terras dessa Capitania há erva a que chamam Congonha e os Castilhanos Laprocuichoza; e porque dela se pode tirar grande utilidade: Me pareceu ordenar-vos envieis a este Reino a ordem do meu Conselho Ultrº um caixão da dita erva com a receita da forma como se tira dela...”
Por uma Resolução Régia de 29 de abril de 1722 vemos o Conselho Ultramarino chamando a atenção dos brasileiros para a erva-mate, abundante nas terras da colônia e cujo comércio com o Prata se lhe afigurava muito benéfico, não somente sob o ponto de vista comercial mas também sob o aspecto político, propiciando um perfeito conhecimento da costa sul do Atlântico. Percebe-se nas entrelinhas desta resolução, que a Coroa Portuguesa já tinha em mente a expansão geográfico para o sul o que, na realidade, dentro em breve se verificaria, com o povoamento do território do Rio Grande.
E assim se iniciou o nosso comércio de erva-mate com os mercados do Prata. Preliminarmente, foi ele de pouco vulto - não por escassês da produção brasileira - mas antes por dois outros motivos. O primeiro deles consistia nos dificultosos meios de comunicação que nos ligavam às províncias platinas: frágeis veleiros, cujo curso naquela pequena extensão de mar durava meses a fio. E o segundo fator, aliás o preponderante, era o alargamento cada vez maior da exportação jesuíta. Entretanto, com a expulsão dos padres da Companhia de Jesus, melhoraram visivelmente as condições do comércio brasileiro do mate, principalmente porque a nossa erva era muito mais saborosa do que a erva paraguaia. Acreditavam mesmo, os platinos, que a erveira que crescia em nossas matas não era da mesma espécie de sua similar paraguaia. Esta crença perdurou muitos anos, tanto no Prata como no Brasil, e somente após a viagem do naturalista Auguste de Saint-Hilaire à América, já no século XIX, ficou definitivamente aclarado o assunto: a erva-mate brasileira era absolutamente idêntica à erva paraguaia. Se alguma diferença havia no sabor de ambas, certamente era motivada pelos fatores climatéricos, que sempre se fazem sentir influentemente durante a colheita do mate.
Se a cotação do mate brasileiro muito melhorara com a expulsão dos jesuítas, veio a alcançar uma posição proeminente ao se estabelecer no Paraguai o governo ditatorial do Dr. Francia. A partir de 1813, o ditador paraguaio começou a impor restrições e mais restrições à exportação da erva, até que um dia deliberou a proibição total, de modo que a produção ervateira daquele país se restringiu às exigências do consumo interno. Com este fato, Montevideo e Buenos Aires ficaram praticamente sem mate, tal a importação que faziam dos ervais paraguaios. E, para se furtarem ao embaraço criado, os platinos - que não podiam prescindir do chimarrão - puseram seus navios ao mar e vieram buscar a congonha do Paraná. Desde aí, o comércio do mate tomou um surto espantoso no sul do Brasil, desbravando selvas e plantando vilas.
O Brasil se tornara o produtor único de mate.
Pensando tirar o máximo de proveito desta situação que a política paraguaia engendrara, muitos foram os comerciantes do Prata que vieram tentar a fortuna na região ervateira do Brasil, trazendo para ela os primeiros “engenhos de soque” já abundantes em Assunção. Foi o paraguaio d. Francisco de Alzugaray o primeiro comerciante estrangeiro a se dedicar ao beneficiamento da erva brasileira, tendo-se estabelecido no litoral paranaense. Logo em seguida o espanhol D. Manoel Miró montava o segundo engenho, em Paranaguá. Como a experiência desse bom resultado, os engenhos se espalharam pelo Paraná e Santa Catarina. E a erva-mate começou a fluir abundantemente para os mercados do Prata.
A região ervateira no Brasil era então um formigueiro, movimentando milhares de trabalhadores. E o mate ia subindo na balança de nossa exportação. Em 1852, alcançava uma soma de 514:358$380, computando-se somente a exportação do Paraná. Mas o maior impulso para a indústria do mate ocorreu com a abertura das estradas D. Francisca, em Santa Catarina (1858) e Serra Graciosa, no Paraná (1876). A Estrada da Graciosa. principalmente, desempenhou um importante papel na expansão de nossa indústria ervateira, devido ao fato de cortar a região onde os ervais se apresentavam em maior concentração; Curitiba tomou-se o maior centro industrial do mate e já um ano após a abertura da referida estrada exportava a vultosa quantidade de 13 milhões de quilos. Em breve, o mate constituía uma das maiores riquezas nacionais, ocupando o segundo lugar em nossa lista de exportação.
Essas cifras entusiasmam ao primeiro olhar, e bem se poderá imaginar que houvesse uma generalizada fartura nas regiões ervateiras do Brasil, principalmente se se considerar que nossa terra era então a única produtora de mate no mundo. Entretanto, a realidade era bem outra, pois com o mate se verifica o mesmo que mais tarde haveria de ocorrer com nossa borracha: enquanto os trabalhadores brasileiros se afundavam na mais negra miséria, o produto de seus esforços ia acumular-se em imensas fortunas nas capitais estrangeiras.
A explicação é assás simples. Com a chegada de Alzugaray, Miró e muitos outros, alertaram-se os nossos comerciantes para o interesse que se devia tomar com a exportação ervateira para o Prata. E em pouco tempo um único pensamento se assenhoreara do cérebro dos nossos “donos-do-mate”: fornecer erva em abundância para os importadores portenhos e montevideanos. Assim, anualmente iam os nossos exportadores até o Prata, a tratar com os distribuidores de mate qual a espécie de produto desejado, qual a proporção de paus e pó que desejavam para a marca que iam lançar, qual a quantidade de erva que necessitavam e qual o preço que ofereciam. Recebiam dos platinos a “receita” e algum dinheiro “por conta” e voltavam ao Brasil, onde se punham logo a contratar caboclos para o serviço das colheitas. É desnecessário dizer que o pagamento deste trabalho ficava condicionado ao preço que os importadores haviam estabelecido para as cargas de mate, e que, em última análise, eram eles os grandes beneficiários do pesado labor dos nossos ervateiros.
A maioria da erva que exportávamos era do tipo “cancheada”, isto é, apenas apresentando as folhas fragmentadas, sem terem sido moídas em engenho. Esta “cancheada” era misturada pelos argentinos ao produto paraguaio, menos saboroso e com muita percentagem de paus, e recebia uma determinada marca, com a qual era distribuída ao comércio. “Aqui éramos meros colhedores do produto nativo e exportadores da matéria prima, sem marca, para que os moageiros argentinos fizessem dele o que bem lhes interessasse. Além de figurarmos nessa comédia como simples agentes dos omportadores, não tínhamos dinheiro para colher o nosso produto. Éramos e somos simples bugres, pelados, no meio dos ervais, que tem de pedir facão, sal, fósforos, algumas roupas, farinha e charque, para poder trepar na erveira, podá-la e fazer erva”.
Como a maioria de nossos produtores não possuísse dinheiro, apelavam para os bancos, a fim de que pudessem adiantar aos ervateiros as quantias necessárias para as despesas do desbravamento do erval. Sabedores deste fato, os argentinos aproveitaram-se da situação: quando a erva chegava ao porto de Buenos Aires, procediam eles a uma nova “classificação”. Informavam, então, que grande parte do produto não satisfazia às condições por eles requeridas, e assim era impossível aceitá-lo. E acrescentavam: “Só por tal preço!” Enquanto isso, os bancos alertavam os nossos comerciantes sobre a aproximação do último prazo de pagamento de seus títulos. Encurralados, os produtores brasileiros não tinham outro rumo a tomar senão liquidar a carga pela ninharia estipulada pelos argentinos. E ao mesmo tempo que as fortunas iam se acumulando nos armazéns de Buenos Aires, o nosso ervateiro, expoliado pelos exportadores, sem nenhum outro amparo ia caindo em estado cada vez mais miserável.
A situação se agravava. Procuraram, então, os políticos do Paraná, resolver aquele grave problema que entravava a nossa indústria ervateira. Chegaram eles à conclusão de que se devia restringir a exportação de erva-mate cancheada para o Prata; assim, a nossa indústria beneficiadora tomaria vulto, ao mesmo tempo que a indústria argentina se arruinaria. Para tanto, surgiu a lei provincial n.º 810, de 3-11-1885, pela qual ficava estabelecido que a erva-mate cancheada pagaria 2$000 por arroba exportada, enquanto a beneficiada teria livre exportação. Penavam os legisladores paranaenses ter resolvido maravilhosamente a questão: daí por diante os exportadores brasileiros se veriam obrigados a só comerciar com a erva beneficiada, devido ao imposto absurdo que recaía sobre a cancheada. Mas os argentinos revidaram com grande sabedoria: a beneficiada brasileira, ao chegar aos portos platinos, pagaria 25 centavos (mais de l$000) de imposto, por arroba, enquanto a cancheada nada pagaria. A situação mudara, mas para pior.
As exportações de erva cancheada continuaram cada vez maiores, para desespero já do legislador burlado em seus desígnios, já do comerciante brasileiro, obrigado a pagar impostos exorbitantes. Dezessete anos durou esta situação crítica. E enfim, a 22 de março de 1902 surgiu a “Lei de Equiparação”, revogando a antigas imposições e igualando as duas espécies de erva no direito de exportação.
E o problema continuou sem solução.
Mas o pior viria em 1910. Nesse ano ficou definitivamente resolvida a questão de limites de Missões. O presidente dos EE.UU., escolhido como árbitro, julgou o caso a favor da Argentina. E lá se foi uma boa parte de nossa região ervateira. Começaram então os argentinos a tratar dos ervais de Misiones. E tal qual já haviam feito os jesuítas, há dois séculos atrás, iniciaram extensas plantações de erva-mate.
Aliás, já no ano de 1816, Bonpland, o renomado naturalista que acompanhara Humboldt em sua travessia pela América do Sul, se interessara junto ao governo de Buenos Aires pelo ressurgimento das plantações, de mate. Quatro anos lutou ele até conseguir iniciar, na antiga missão jesuíta de Candelária, em Corrientes, a sua sonhada cultura. Mas nunca Bonpland poderia ter imaginado o que seguiu àquele seu trabalho: “O comandante de S. Miguel, situado nessa banda do Paraná, avisou ao ditador (Dr. Francia) que nessas Missões se tinham plantado um grande benefício de erva, e que o dirigia um francês. O ditador deu imediatamente ordem ao comandante que destruísse aquele estabelecimento. Durante as sombras da noite caíram sobre ele uns quatrocentos paraguaios, que o incendiaram. Fizeram doze prisioneiros e entre eles Bonpland: e todos inocentes e apesar de seus grandes gritos, foram fuzilados, com exceção de Bonpland, a quem mandou tirar os ferros, e que ficou preso, sem embargo de muitas intercessões européias, durante nove anos em um povo chamado de Sta. Maria da Fé”.
Quando os ervateiros brasileiros souberam que os argentinos estavam plantando mate, a notícia só serviu para causar risos, e não houve quem não chamasse os castelhanos de idiotas. Ora, pois se todo o mundo sabia que erva-mate não podia ser plantada! Só as aves, expelindo as sementes que engoliam, é que conseguiam fazer novas erveiras. E apoiados numa arraigada superstição, afirmavam os nossos caboclos: “O homem nunca mais poderá plantar erveiras, desde que os jesuítas foram expulsos das Missões e “rogaram” uma praga a todos plantadores de erva. Não adianta querer lutar contra esta maldição.
Mas os argentinos sabiam o que estavam fazendo. Se no século XVII, com meios rústicos e com um comércio reduzido, os jesuítas haviam alcançado um progresso impressionante em seus domínios, graças ao mate plantado, por que não poderiam eles colher idênticos resultados, em pleno século XX? E, cheios de esperança, ficaram a observar o crescimento de suas erveiras. Em pouco tempo - para espanto dos brasileiros - os ervais se estendiam em milhares de pés, pelo território de Misiones. E a produção argentina começou a se fazer notar. No primeiro ano de colheita, 1914, os argentinos alcançaram 3.000.000 de quilos de mate; e passados 20 anos assoberbavam a nossa gente com uma produção anual de 75.361.699 quilos - o suficiente para prover às exigências de seu consumo. Em 1937, já perdíamos para aquela nação o nosso lugar de maiores produtores de mate. Em 1939 a colheita foi tal naquele país que se criou o problema da superprodução: nada menos de 40 milhões de quilos tiveram de ser destruídos. E para completar aquela estrondosa vitória, ainda Misiones passou a nos roubar centenas de trabalhadores; começava o êxodo de nossos ervateiros para a Argentina, onde as condições sociais eram mais favoráveis aos trabalhadores rurais.
Enfim, havíamos perdido para sempre o nosso maior mercado consumidor e - como no caso da borracha - restava-nos apenas chorar as incomensuráveis riquezas perdidas. E procurar, numa última esperança, a conquista de novos mercados... (Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Você pode encontrar as obras de Barbosa Lessa em qualquer livraria gaúcha, mas principalmente no Martins Livreiro, na Rua Riachuelo, em Porto Alegre)
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