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A história climática do Rio Grande do Sul tem uma nova página

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Publicação: 05/09/2008

O Rio Grande do Sul experimentou nesta sexta-feira um dia memorável de frio. A data 5 de setembro de 2008 entrará para a história climática do Rio Grande do Sul pelos seus acontecimentos que ficarão na memória de milhares de pessoas que foram testemunhas de fenômenos raramente observados em suas regiões e que não apresentavam intensidade como a observada hoje em décadas. O clima do Rio Grande do Sul mostrou uma vez mais porque é fascinante e nos lembrou uma vez mais que deve ser encarado sempre com humildade, afinal inverno não se termina por decreto em jornal e a história coleciona diversos eventos extremos de frio no final da estação, somando-se neste gelado 5 de setembro de 2008 mais um episódio memorável.

Onde nevou ? Neve granular, neve em flocos e precipitação de chuva congelada são registradas desde o período da manhã em cidades da Metade Sul gaúcha. Até às cinco da tarde desta sexta-feira, a MetSul Meteorologia pôde confirmar por meio de um levantamento exclusivo feito pelo sua equipe a ocorrência de neve granular e chuva congelada em pelo menos catorze cidades da Metade Sul gaúcha. Santana do Livramento, Herval, Arroio Grande, Hulha Negra, Candiota, Bagé, Aceguá, Dom Pedrito, Morro Redondo e pontos isolados da área urbana de Pelotas tiveram neve granular ou chuva congelada. Houve registro de neve em flocos em Pedras Altas, Canguçu, Piratini e Pinheiro Machado. Em diversos pontos destas cidades que tiveram precipitação na forma de flocos, a neve acumulou. Em Pinheiro Machado, a neve durou quase duas horas, o que propiciou a acumulação. Em Bagé, os grãos de gelo acumularam nos vidros dos automóveis. As escolas registraram a presença de poucos alunos devido à decisão dos pais de não enviar os filhos por conta do frio intenso.

Por que nevou ? A neve era prevista ? A MetSul Meteorologia foi o único órgão de previsão do tempo, público ou privado, a antecipar a possibilidade de nevar na Metade Sul gaúcha nesta sexta-feira. O cenário que propiciou o fenômeno no sul gaúcho foi muito semelhante ao que determinou a neve na cidade de Buenos Aires entre 9 e 10 de julho do ano passado, quando a capital argentina registrou a maior nevada desde junho de 1918. Tanto naquela ocasião como nesta sexta-feira, uma forte massa de ar polar cobria a região. A partir do Oeste, avançou um sistema de baixa pressão que trouxe instabilidade. A combinação de chuva com ar gelado favoreceu a ocorrência de chuva congelada e neve.

Vai nevar mais ? Há possibilidade de neve, seja em flocos ou na forma granular, ainda nas próximas horas na Metade Sul gaúcha. No decorrer do sábado, as condições para o fenômeno diminuem e cessam no Sul do Estado, entretanto o ingresso de ar mais gelado pelo Norte da Argentina não permite afastar a possibilidade do fenômeno durante o sábado em cidades mais a Oeste e Noroeste do Rio Grande do Sul assim como em pontos isolados do Centro, apesar da chance ser pequena nestas regiões. Um ciclone vai estar em formação na costa gaúcha, propiciando que o ar gelado com vento Minuano avance a partir do Oeste em direção ao Norte gaúcho. A chance é pequena de neve ou chuva congelada no Oeste e no Noroeste, mas não pode ser descartada. A circulação de umidade a partir do sistema de baixa pressão e a chegada de ar mais frio pelo Oeste traz a possibilidade do fenômeno para a Serra Gaúcha e os Aparados neste fim de semana, onde nesta sexta-feira a temperatura em níveis mais altos da atmosfera, no ponto de formação da neve, não era favorável ao fenômeno, apesar do frio intenso com chuva em superfície.

Neve em setembro tem sido mais freqüente nesta década. Os meses mais frios do ano, climatologicamente, são junho, julho e agosto, mas nesta década os principais eventos de neve no Sul do Brasil têm sido registrados em setembro. Em 1º de setembro de 2002, nevou nas áreas mais elevadas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina com acumulação importante na região de São Joaquim. Naquele dia, chegou a nevar em locais de menor altitude no Rio Grande do Sul com registro de neve granular no Parque de Exposições Assis Brasil em Esteio durante a Expointer. Em 2005, na metade de setembro, houve registro de chuva congelante e neve com trovoadas, eventos muito raros, no interior do município catarinense de São Joaquim. Em 4 de setembro de 2006, um intenso ciclone na costa argentina trouxe umidade e frio que resultaram em neve em flocos e granular em mais de oitenta cidades gaúchas. Nevou em locais mesmo de baixa altitude, inclusive na Capital e região metropolitana. No Vale dos Sinos, o gelo chegou a acumular em Novo Hamburgo e São Leopoldo. A precipitação naquele oportunidade foi mais intensa em São Francisco de Paula que ficou branca pela neve.

Temperaturas incomuns para o período da tarde ! O frio registrado durante esta sexta-feira na Metade Sul gaúcha foi incomum mesmo para o período mais frio do ano de junho a setembro, quanto mais para setembro, mês de transição climática para a primavera. As condições no Sul gaúcho se assemelharam muito às verificadas em 24 de agosto de 1984, quando a temperatura despencou durante o dia e as mínimas ocorreram à tarde, quando nevou na região. Na tarde desta sexta-feira, os termômetros chegaram a marcar em pleno dia e com chuva valores de 2,5ºC em Bagé, 2,7ºC em Santana do Livramento, 2,2ºC em Canguçu, 5,1ºC em São Gabriel, 5,2ºC em Quaraí, 5,7ºC em Uruguaiana, 4,9ºC em Alegrete, 5,2ºC em Santa Maria e 3,1ºC em Caçapava do Sul. São valores extraordinários para o período da tarde e não seria exagero dizer que o Sul do Estado registrou uma das tardes mais frias no mês de setembro em um século. Na Capital, a temperatura se manteve caiu abaixo dos 10ºC às cinco da manhã e até o final da tarde as marcas nos termômetros eram de apenas um dígito. Historicamente, é possível dizer também que Porto Alegre teve uma das tardes mais frias no mês de setembro em um século, afinal o recorde de menor máxima em setembro na cidade na primeira metade do século XX foi de 10,5ºC em 1923, valor superior ao registrado na maior parte do dia na cidade. A máxima em Porto Alegre de 11,2ºC ocorreu entre duas e três da manhã, declinando fortemente no fim da madrugada e mantendo-se quase estável durante o dia. Em São Leopoldo, a temperatura não passou de 9,8ºC à tarde na sede da MetSul Meteorologia no Morro do Espelho. Na terça-feira, os termômetros tinham chegado a marcar 33,3ºC em Porto Alegre e 34,7ºC no Vale do Sinos, as maiores marcas até agora neste inverno na região e as mais altas desde abril passado.

Tendência: O tempo segue instável em Porto Alegre e região no restante desta sexta-feira com risco ainda de chuva forte a ocasionalmente torrencial em alguns momentos. A temperatura seguirá baixa, mas deve se elevar em relação à tarde desta sexta, ficando entre 10ºC e 12ºC. A instabilidade não vai dar trégua durante o sábado que será outro dia de céu encoberto com chuva, garoa e rajadas de vento ocasionalmente fortes. Mantém-se a possibilidade de chover forte no decorrer do período, sobretudo entre a madrugada e o período da manhã. Um sistema de baixa pressão estará se intensificando no litoral, onde deve dar origem a um ciclone extratropical, o que deve impulsionar o ar mais frio da Argentina e do Uruguai para o Estado a partir do oeste, o que manterá o frio intenso na região. O frio durará o dia todo e a tarde e noite deste sábado pode ter marcas ainda menores que nesta sexta-feira com registros entre 7ºC e 9ºC. O dia ainda vai começar com marcas entre 10ºC e 12ºC nos termômetros, mas que vão declinar no decorrer do período. Não se descarta uma possibilidade remota de neve granular ou precipitação de gelo na Grande Porto Alegre, mas o fenômeno é pouco provável se considerada a temperatura positiva no nível de 1.500 metros de altitude projetado pelos modelos. O vento também deve aumentar no decorrer do dia, podendo soprar com rajadas fortes, o que manterá a sensação térmica muito baixa. No domingo, o ciclone estará mais intenso junto à costa gauchar enquanto ar seco estará ingressando pelo oeste. O dia começará com muitas nuvens e provável registro de chuva ou garoa, mas no decorrer do período a nebulosidade diminui e o sol aparece. A nebulosidade será variável com períodos de maior nebulosidade que pode trazer chuva isolada e passageira. O frio será mais intenso entre a madrugada e o período da manhã e novamente à noite. Durante a tarde, com o sol entre nuvens, os termômetros podem marcar entre 14ºC e 16ºC, mas antes do final do dia estarão de volta às marcas do começo da manhã com 6ºC a 8ºC. O vento, que deve soprar com rajadas fortes devido ao ciclone na costa, deixará a sensação térmica muito baixa mesmo à tarde. Já a segunda-feira deve ter a presença do sol com frio intenso ao amanhecer, quando pode até gear nas áreas verdes da região metropolitana. A mínima deve ficar entre 3ºC e 5ºC e as máximas alcançam entre 17ºC e 19ºC. No interior, a chuva já deve parar neste sábado em diversas cidades do Sul e do Oeste, esperando-se uma melhora do tempo em grande parte do Estado no domingo com o ingresso de ar mais seco. Pode, inclusive, gear na madrugada de domingo em alguns pontos do Sul e do Oeste. No decorrer do domingo, o ar frio e o vento manterão a sensação térmica baixa, apesar do sol e as máximas mais elevadas. A circulação de umidade a partir do mar trará nebulosidade variável com chance de chuva isolada e passageira, sobretudo para o Sul e o Leste do Estado, reiterando-se a possibilidade de nevar nas partes mais altas do Nordeste do Rio Grande do Sul entre a madrugada e a manhã de domingo.

Alerta de vento e ressaca. O aprofundamento de um sistema de baixa pressão junto ao litoral gaúcho neste fim de semana deve favorecer a ocorrência de fortes rajadas de vento, particularmente na Metade Leste do Estado. As rajadas devem ser mais intensas na faixa litorânea e nos Aparados da Serra, onde podem ficar entre 70 e 90 km/h, não se descartando velocidades maiores em alguns pontos. A agitação marítima passará a ser forte com elevado risco de ressaca na orla devido ao mar grosso e às ondas muito altas.



Fonte:   Metsul
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