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Capítulo 03 - A Salamanca do Jarau

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Page Views: 260
Publicação: 01/10/2007


 (J. Simões Lopes Neto)
 

 (continuação)
 
 É certo:
não tomou tenência que a teiniaguá era mulher... Ouve, paisano.
 
 No costado da cidade onde eu vivia havia uma lagoa, larga e funda, com uma ilha de palmital, no meio. Havia uma lagoa...
 
 A minha cabeça foi banhada na água benta da pia, mas nela entraram soberbos pensamentos maus... O meu peito foi ungido com os santos óleos, mas nele entrou a doçura que tanto amarga, do pecado...
 
 A minha boca provou do sal piedoso... e nela entrou a frescura que requeima, dos beijos da tentadora...
 
 Mas, é que assim era o fado...; tempo e homem virão para me libertar, quebrando o encantamento que me amarra; duzentos anos hão de findar; eu esperarei no entanto, vivendo na minha tristeza seca, tristeza de arrependido que não chora...
 
 Tudo o que volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão...
 
 Era eu que cuidava dos altares e ajudava a missa dos santos padres da igreja de S. Tomé, do lado ao poente do grande rio Uruguai. Sabia bem acender os círios, feitos com a cera virgem das abelheiras da serra; e bem balançar o turíbulo, fazendo ondear a fumaça cheirosa do rito; e bem tocar a santos, na quina do altar, dois degraus abaixo, à direita do padre; e dizia as palavras do missal; e nos dias de festa sabia repicar o sino; e bater as horas, e dobrar a finados... Eu era o sacristão.
 
 Um dia, na hora do mormaço, todo o povo estava nas sombras, sesteando; nem voz grossa de homem, nem cantoria das moças, nem choro de crianças: tudo sesteava. O sol faiscava nos pedregulhos lustrosos, e a luz parecia que tremia, peneirada no ar parado, sem uma viração.
 
 Foi nessa hora que eu saí da igreja, pela portinha da sacristia, levando no corpo a frescura da sombra benta, levando na roupa o cheiro da fumaça piedosa. E saí sem pensar em nada, nem de bem nem de mal; fui andando, como levado...
 
 Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
 
 A água da lagoa borbulhava toda, numa fervura, ronquejando tal e qual como uma marmita no borralho. Por certo que lá embaixo, dentro da terra, é que estaria o braseiro que levantava aquela fervura que cozinhava os juncos e as traíras e pelava as pernas dos socós e espantava todos os mais bichos barulhentos daquelas águas...
 
 Eu vi, vi o milagre de ferver, toda uma lagoa..., ferver, sem fogo que se visse!
 
 A mão direita, pelo Costume, andou para fazer o “Pelo-Sinal”... e parou, pesada como chumbo; quis rezar um “Credo”, e a lembrança dele recuou; e voltar, correr e mostrar o Santíssimo... e tanger o sino em dobre... e chamar o padre superior, tudo para esconjurar aquela obra do inferno... e nada fiz... nada fiz, sem força na vontade, nada fiz... nada fiz, sem governo no corpo!...
 
 E fui andando, como levado, para de mais perto ver, e não perder de ver o espanto...
 
 Porém logo outra força acalmou tudo; apenas a água fumegante continuou retorcendo os lodos remexidos, onde boiava toda uma mortandade dos viventes que morrem sem gritar.
 
 Era o fim de um lançante comprido, estrada batida e limpa, de todos os dias as mulheres irem para a lavagem; e quando eu estava na beira da água, vendo o que estava vendo, então rompeu dela um clarão, maior que o da luz a pino do dia, clarão vermelho, como dum sol morrente, e que luzia desde o fundão da lagoa e varava a água barrenta...
 
 E veio crescendo para a barranca, e saiu e tomou terra, e sem medo e sem ameaça veio andando para mim a sempre escapada maravilha... maravilha que os que nunca viram juravam sempre ser - verdade - e que eu, que estava vendo, ainda jurava ser - mentira! -
 
 Era a teiniaguá, de cabeça de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao padre superior a história contada dum encontradiço que quase cegou de teimar em agarrá-la.
 
 Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando o perigo; mas a teiniaguá veio-se me chegando, deixando no chão duro um rastro d’água que escorria e logo secava, do seu corpinho verde de lagartixa engraçada e buliçosa...
 
 Lembrei-me - como quem olha dentro duma cerração -, lembrei-me do que corria na voz da gente sobre o entanguimento que traspassa o nosso corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino num couro ressequido...
 
 Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente, firmando nas patinhas da frente, a cabeço cristalina, como curiosa, faiscando...
 
 De olhos apertados, piscando, para não me atordoar dum golpe de cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para dentro dela!
 
 Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e a cabeça sonando como um sino de catedral...
 
 Corri para o meu quarto, na casa-grande dos santos padres. Entrei pelo cemitério, por detrás da igreja, e desatinando, derrubei cruzes, pisoteei ramos, calquei sepulturas!...
 
 Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.
 
 Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.
 
 Pelo falar do padre superior em bem sabia que quem prendesse a teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os Cavaleiros da Tábula...
 
 Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que se conhecia.
 
 E eu, agora!...
 
 E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos...
 
 E foram se escancarando portas de castelos e palácios, onde eu entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava às janelas, arredava reposteiros, deitava-me em camas grandes, de pés torneados, esbarrava-me em trastes que nunca tinha visto e servia-me em baixelas estranhas, que eu não sabia para o que prestavam...
 
 E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde no azul das distâncias, e ainda lindando com outras estâncias, que também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas...
 
 E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos como mato virgem...
 
 E atulhava de planta colhida - milho, feijão, mandioca - os meus paiós.
 
 E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios, amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata; dependuradas na galhação de cem cabeças de cervos, tinha bolsas de couro e de veludo, atochadas de diamantes, brancos como gotas d’água filtrada em pedra, que os meus escravos - saídos mil, chegados dez -, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma cachoeira grande, em meia-lua, chamada de Iguaçu, muito pra lá doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra...
 
 Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a contar, a pesar, a medir...
 
 Tudo isto eu podia ter - e tinha, de meu, tinha! -, porque era o dono de teiniaguá, que estava preso dentro da guampa, fechada na canastra forrada de couro cru, tauxiada de cobre, dobradiças de bronze!...
 
 Aqui. ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde...
 
 Pela primeira vez não fui eu que toquei; seria um dos padres, na minha falta
 
 Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
 
 Voltei a mim. Lembrei-me de que o animaizinho precisava alimento.
 
 Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de mel de lexiguana, por ser o mais fino.
 
 E fui; melei; e voltei.
 
 Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.
 
 E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se arriscaram e o coração mermou no compassar o sangue!...
 
 Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!...
 
 Que disse:


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