O litoral gaúcho é um dos mais extensos do país. Com exceção de uns poucos lugares, pode ser percorrido de carro em seus 650 quilômetros, sem maiores dificuldades. Toda essa faixa costuma ser apresentada como uma praia única, toda de mar aberto, sem uma baía, vegetação ou sequer um morro (com exceção de Torres, na divisa com Santa Catarina) e, em sua maior parte, tomada por dunas, que separam a beira do mar de um colar de 61 lagoas e grandes banhados, como o do Taim, entre a Lagoa Mirim e o Mar, próximo ao Uruguai, um dos mais importantes santuários ecológicos do país. A maior ocupação dessa faixa litorânea ocorre apenas no litoral norte, entre Torres e as proximidades de Palmares do Sul, uma faixa de menos de 200 quilômetros, entre 130 e 200 quilômetros de Porto Alegre. Desse extremo, no norte, a Rio Grande e desta cidade ao Chuí, nos mais de 450 quilômetros restantes, somente existem dois balneários mais utilizados: o do Cassino, em Rio Grande, e o do Hermenegildo, em Santa Vitória do Palmar, a poucos quilômetros do Chuí. Nas praias desertas dessa grande faixa de mar, predominam bandos enormes de aves migratórias que fogem do frio do Hemisfério Norte ou do extremo-sul do continente, para procriar e se alimentar no colar de lagoas do Rio Grande do Sul, principalmente em dois lugares: na Estação Ecológica do Taim, entre Rio Grande e Santa Vitória do Palmar; e no Parque Nacional da Lagoa do Peixe, onde os destaques são os flamingos oriundos das regiões frias do Chile, entre a Lagoa dos Patos e o mar. Essa vasta região, no passado, era dominada pelos bandoleiros que atraíam os navios para a beira da praia, para poderem assaltá-los. Era conhecida como Campos Neutrais, uma terra de ninguém reconhecida pelo Tratado de Santo Ildefonso, que não pertencia nem ao Brasil e nem ao Uruguai. O lugar era tão remoto que chegou a sediar um grupo mafioso sob o comando de refugiados italianos da Calábria, que foram levados para a região pelo duque Luigi Amadeo de Sabóia, um explorador do Pólo Norte que possivelmente estava interessado em criar um ponto de apoio para o caso de querer aventurar-se pelo Pólo Sul. Esses refugiados formaram a Societá Benevolenza Italiana, nos moldes da máfia, também conhecida como Honorata Societá. Quando Mussolini chegou ao poder na Itália, a Honorata tornou-se um núcleo fascista e, em 1938, foi dissolvida e seu patrimônio passou para o governo italiano. Foi confiscada durante a Segunda Guerra Mundial mas, passado o conflito, voltou para o patrimônio do governo italiano. O imóvel se degradou com o tempo e o que restou de seus documentos foram levados anos atrás pelo historiador Péricles Azambuja para o consulado italiano em Porto Alegre.
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