A necessidade de regulamentação da profissão de tecnólogo foi tema de audiência pública da Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia na manhã desta terça-feira (27), na sala Salzano Vieira da Cunha, da Assembléia Legislativa. A audiência foi uma iniciativa dos deputados Heitor Schuch (PSB), que presidiu os trabalhos, e Miki Breier (PSB). "Foi muito oportuno ouvir as questões que são os entraves hoje para os tecnólogos poderem trabalhar. O mercado é discriminatório e as instituições no Brasil estão atrasadas em relação à formação e à qualificação desses profissionais", disse Schuch.
Conforme a diretora da Faculdade de Tecnologia do Brasil, Jaíra de Abreu, a ausência de regulamentação faz com que os profissionais enfrentem dificuldades no mercado de trabalho. "Os profissionais saem com uma formação excelente, mas por preconceito não conseguem colocação", afirmou. Segundo ela, há em Porto Alegre 800 tecnólogos e, nos últimos 10 anos, a procura de alunos pelos cursos de graduação tecnológica cresceu 632%, enquanto a procura pelos cursos de bacharelado cresceu 30%.
O professor Volnei Borges relatou a sua experiência como responsável por cursos de pós-graduação em Radiologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS), que recebe profissionais graduados em áreas médicas e também tecnólogos em radiologia. "Posso dizer que, em termos de capacitação e desempenho, os tecnólogos são competivivos. Porém, o que ouço dos técnicos de nível médio que querem cursar a pós-graduação e são impedidos é que técnicos e tecnólogos são a mesma coisa. Já os médicos perguntam por quê estou recebendo tecnólogos".
Segundo o representante da Comissão de Educação do Conselho Nacional de Técnicos em Radiologia Jorge Wolnei Gomes, existe uma sobreposição de atividades. "Os tecnólogos se preparam, estudam anos, investem numa cerimônia de formatura e depois são tratados no mercado de trabalho como técnicos (de nível médio)", disse.
De acordo com a professora da Universidade Estadual do RS (Uergs) Andréa Pinto Loguércio, os cursos de tecnólogo são reconhecidos pelo Ministério da Educação há mais de 20 anos. "O Conselho Nacional de Educação estabelece três modalidades de ensino superior: bacharelado, licenciatura e superior de tecnologia", explica. "Desde aquela época surgiram 2,5 mil cursos de tecnólogos no país, então em 2005, visando organizar esse quadro, o MEC lançou o Catálogo Nacional de Cursos Superiores de Tecnologia". O catálogo renomeia esses 2,5 mil cursos reduzindo-os a 93 cursos, distribuídos em 10 eixos principais: Produção Alimentícia; Recursos Naturais; Produção Cultural e Design; Gestão e Negócios; Infra-Estrutura; Controle e Processos Industriais; Produção Industrial, Hospitalidade e Lazer; Informação e Comunicação; e Ambiente, Saúde e Segurança.
O presidente da Associação dos Tecnólogos do Estado do Rio Grande do Sul, Luís Antero Campos da Silva, defendeu a criação de um conselho próprio dos tecnólogos, uma vez que nos demais conselhos eles não são aceitos. A professora Andréa Loguércio, no entanto, acredita que a melhor solução é integrar cada categoria profissional tecnológica ao sindicato da área, reunindo bacharéis e tecnólogos numa mesma entidade.
A representante da Fatec Internacional Laine de Andrade e Silva atribui o problema a uma disputa de mercado e à falta de entendimento entre os ministérios da Educação e do Trabalho. "Se os tecnólogos não fossem tão bem preparados não haveria tanta resistência e preocupação", avaliou. "O ministério da educação está fazendo o dever de casa, mas é preciso que o ministério do trabalho caminhe na mesma direção".