Page Views: 555
Publicação: 11/09/2007
Atualização: 11/09/2007
|
|
|
|
A convivência entre Sant'Ana do Livramento e Rivera e, particularmente, entre brasileiros e uruguaios sempre foi, na maior parte das vezes, pacífica. Mas, de vez em quando, ao longo da história, ocorreram alguns pequenos conflitos, que chegam a ser integrados ao folclore local, pela sua insignificância. Assim foi em 1974, quando, após a vitória do Brasil sobre o Uruguai, na Copa do Mundo de futebol, alguns desvairados brasileiros, provavelmente aquecidos com um pouco mais de álcool, decidiram invadir Rivera, em vingança pela derrota imposta ao Brasil pelo Uruguai na final da Copa de 1950, no Maracanã. Rapidamente a polícia uruguaia desligou a luz da cidade, e colocou o regimento de cavalaria e corpo de bombeiros em frente à linha divisória. A polícia brasileira também fez a sua parte, colocando-se no lado de cá da linha divisória junto ao corpo de bombeiros brasileiro, para evitar a invasão do país irmão. A arruaça, porém, se dissolveu rapidamente. E, por sorte, não houve nenhum incêndio de grandes proporções naquele momento. Quando isso acontece, os dois corpos de bombeiros costumam atuar juntos. Com a retirada de suas tropas, a linha de fronteira ficaria desguarnecida e o bando de arruaceiros poderia, com certeza, andar uma ou duas quadras quebrando janelas. Mas não são só os corpos de bombeiros que se auxiliam mutuamente. Também existem outros laços. A urbanização das duas cidades é planejada de forma integrada e, há alguns anos, a prefeitura de Livramento chegou a doar sinaleiras para o controle do tráfego na cidade vizinha. Como uma mão lava a outra, o favor já foi retribuído em outras ocasiões. Afinal, Livramento usa o aeroporto de Rivera, e existe ligação entre a rede de água e de energia das duas cidades, para que, em caso de emergência, uma possa socorrer a outra. Em caso de crimes, a coisa também já é definida: via de regra, a jurisdição sobre o crime é de onde se recolhe o cadáver, quando há crime de morte. Apesar da convivência absolutamente harmônica, moradores de uma e outra cidade não se esquecem da fidelidade que, em última instância, devem ao seu país natal. Afinal, os do lado de lá são os "castilhanos". Um velho morador de Livramento, que fala as duas línguas com a mesma fluência e que tem inúmeros amigos do lado de lá, apresenta sua queixa: "todas as ruas deles que desembocam na faixa de fronteira têm o nome de batalhas que o Brasil perdeu. São a Sarandi, a Husaingo e a Agraciada. Por que não colocam na avenida da linha divisória - que se chama João Pessoa - o nome de Tacuarembó, batalha em que nosso exército derrotou definitivamente Artigas? - pergunta o velho morador. No entanto, também não se esquece a dívida de gratidão que muitos brasileiros (entre os quais, mais recentemente, poderia se destacar Leonel Brizola) têm para com seus vizinhos uruguaios. No início do século, quando as revoluções eram freqüentes dos dois lados, muitos brasileiros iam se refugiar no Uruguai, ali mesmo, em Rivera. Isto, porém, não impedia os conflitos. Em 1903 grupos armados brasileiros invadiram Rivera para atacar dois jornais brasileiros que eram editados naquela cidade, e que faziam oposição a Júlio de Castilhos no Rio Grande, e aos "blancos" no Uruguai (aliados de Júlio de Castilhos). Alguns meses depois, em um incidente causado por um soldado brasileiro durante a festa de colocação de um sino novo na matriz de Rivera, o irmão do intendente municipal de Livramento foi preso. Após a troca de ameaças de lado a lado e do esforço de cavar trincheiras e colocar tropas prontas para combate, o caso se solucionou da maneira mais inesperada. O oficial da guarda encarregada de vigiar o prisioneiro, pressentindo que poderia haver um conflito de grandes proporções, encilhou dois cavalos e passou para Livramento por um ponto desguarnecido da fronteira, onde viveu o resto de sua vida e veio a falecer cercado de amigos, como conta o historiador Ivo Caggiani, que sabe, de cor, todos os encontros e desencontros da cidade.
|
|
|
|
|
|