Os lobos e leões-marinhos chegam com o frio e ficam entre as pedras, no meio do mar, enquanto a apenas 1,8 quilômetro dali descortina-se a cidade de Torres e seus edifícios. Torres há muito tempo é uma cidade com os problemas que uma cidade que cresce tem. Mas a Ilha dos Lobos, um aglomerado de pedras no meio do mar, parece ser a ironia de uma vida selvagem tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe da cidade que cresce para cima. Quando os primeiros dias frios invadem abril ou maio, eles começam a chegar aos poucos, vindos da Patagônia. Alguns chegam sozinhos ou em pequenos grupos. Ao aportarem no aglomerado de pedras, cujo perímetro é pouco maior que um campo de futebol, estão protegidos. A Ilha dos Lobos é a menor reserva ecológica do Brasil, talvez a menor do mundo. Os lobos e leões-marinhos não temem os barcos, aos quais perseguem em busca de peixes. Muitos foram mortos por pescadores. Em busca do peixe, os lobos marinhos acabam rasgando a rede e são abatidos. "O bicho parece ensinado. Vai até vinte quilômetros atrás do barco", conta Neviton Carlos Saldanha, um ex-pesquisador que hoje leva os visitantes para passeios a bordo do barco Marina III, que sai do rio Mampituba e contorna a ilha. Saldanha já viu barcos seguidos até por quatro animais. Viu uma fêmea parir um filhote no meio das pedras. A população vai aumentando quando o frio aperta, no meio do inverno. Já contaram-se mais de cem animais sobre as pedras. Eles ficam indiferentes quando os barcos aproximam-se, mas se alguém descer a pé e caminhar sobre a pequena ilha, todos ganharão a água. Temem o homem, mesmo estando em área de proteção. A água em volta das pedras apresenta baixa temperatura, mesmo no verão, quando dificilmente passa dos 20 graus centígrados. Conta-se que, há uma ou duas décadas, as pedras ficavam tomadas de leões e lobos marinhos. Um relatório da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural) de 1982, fala de verdadeiros massacres em volta da ilha. Encontravam-se filhotes solitários na costa, órfãos cujos pais haviam sido assassinados. Nesta época, as pessoas também caminhavam entre as pedras. Um ano depois, a Ilha dos Lobos viraria reserva ecológica, através de um decreto assinado pelo presidente João Batista Figueiredo, em 23 de fevereiro de 1983. Hoje, os barcos chegam de longe. Perto dali está um navio afundado. Os lobos e leões-marinhos aparecem nadando ou descansando sobre as pedras, bem no início da manhã ou no final da tarde. Trazidos pelas correntes glaciais, alguns deles também ficam junto aos molhes da barra de entrada do porto de Rio Grande, apesar do movimento de grandes navios. Aparentam uma docilidade natural e permitem a proximidade. É um aceno de paz.
|