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Aparados da Serra
O que falou a Revista Terra
Um relato sobre a natureza
agreste e suas belezas
(transcrito da edição de agosto/98 da Revista Terra, com texto de
autoria de Daniel Nunes Gonçalves)
A paisagem campestre não fascinaria tanto se não fosse pontilhada por lagos, habitados
por patos selvagens e capões, como são conhecidos os trechos circulares de matas de
araucárias. É nos capões que fica a maior parte dos 10% de araucárias que restou da
floresta original. Antes que o Parque Nacional de Aparados da Serra fosse criado, em 1958,
as cinco serrarias que funcionavam na região se apressaram em contar todas as araucárias
que puderam. As que restaram medem cerca de 15 metros e enchem suas sombras de pinhões
avermelhados, principalmente no período da colheita, entre maio e julho.
Era nas florestas de araucárias que se alimentavam os índios xoclengues, primeiros
habitantes de que se tem notícia naquele trecho da Serra Geral. Os xoclengues habitaram a
Mata Atlântica da serra desde o período colonial até o início do século 20, vivendo
em grupos nômades de até oito famílias.
"Eles eram canibais que se juntavam para atacar as fazendas dos colonos", conta
o montanhista gaúcho Átila Portal, que pesquisa a região há uma década. Átila dá
cursos de travessia de canyons. Ajudou a resgatar uma das duas pessoas que morreram ao
tentar descer os canyons do Parque da Serra Geral sem guia e sem o preparo adequado.
São esses, por sinal, os mais belos passeios feitos no Parque de Serra Geral. Descer os
canyons de Fortaleza e, principalmente, de Malacara são também os programas mais
perigosos: os aventureiros descem por trilhas íngremes e pedras escorregadias, utilizando
técnicas de escalada, do alto do abismo até o fundo do vale.
"As cheias repentinas do rio, causadas pelas chuvas no alto da montanha, as serpentes
e as avalhanches tornam a aventura arriscada", explica Átila.
Não é preciso descer um canyon para perceber sua grandiosidade. A caminhada para chegar
ao topo do canyon Malacara fascina qualquer um durante duas horas, a partir da sede.
Campos verdejantes se encontram com muros de pedra usados como rota das tropas de mulas no
início do século. No final, a vista do alto dos 900 metros do Malacara enche os olhos.
Como em uma enseada de 5 quilômetros de extensão, duas bordas em formato de
"u" ergem um portal de onde se vê o mar da distante Torres e as torres vermelhas da igreja
Matriz de Praia Grande.
Torres e outros trechos dos mares do sul também são a melhor imagem do canyon de
Fortaleza, a 22 quilômetros de Cambará. Principalmente se seus 8 quilômetros de
extensão forem vistos nos dias frios de céu limpo.
Nessa gigantesca muralha que lembra um forte, é possível acampar sob a sombra do capão
a menos de 100 metros do precipício. Os arredores do paredão principal são repletos de
pequenos braços de canyon. Dá para ficar subindo e descendo as pedras durante o dia
todo, visitando, por exemplo, a Pedra do Segredo, uma rocha de 5 metros que fica apoiada
em outra de meio metro sem cair. A água gelada do rio que corre para a cachoeira do Tigre
Preto faz o fundo musical, junto com o vento dos 1.170 metros de altitude e com a
algazarra dos andorinhões-de-coleira que brincam de mergulhar no abismo.
Os canyons do Churriado, do Macuco e do Faxinalzinho, igualmente tentadores, são desses
lugares onde se sente prazer pelo simples fato de estar ali, observando as pedras escuras
do fundo do vale e curtindo o sol sob o corpo agasalhado. Esse pedaço das serras gaúchas
é o ponto mais frio do país, recebendo geadas constantes nas manhãs de inverno.
Foi registrado em Cambará do Sul, no inverno de 1987, o recorde de frio numa cidade
brasileira: 8,2 graus centígrados negativos. "Os únicos lugares com temperaturas
parecidas estão longe das cidades, como o Pico das Agulhas Negras, em Itatiaia, no Rio de
Janeiro", explica o meteorologista Solismar Prestes, do Instituto Nacional de
Meteorologia. chega a nevar na região dos Aparados, com os termômetros registrando
temperaturas de 10 graus centígrados negativos no alto da serra.
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