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História | Santa Vitória do Palmar  | Cemitério de navios


HISTÓRIA

Em 1680, quando a ocupação portuguesa se estendia no Brasil somente até Laguna, em Santa Catarina, foi feita a arrojada tentativa de ocupar o Prata, instalando-se a Colônia de Sacramento, mas sem qualquer apoio de retaguarda.

Até o final do século seguinte, Portugal e Espanha alternaram-se na posse da Colônia, até que, depois de diversos tratados, a região terminou por ficar com a Espanha, trocada com uma grande área no Rio Grande do Sul, conhecida como Sete Povos das Missões, onde se concentravam reduções jesuíticas que, após a expulsão dos jesuítas e inúmeras guerras cisplatinas, acabaram sendo dizimadas, restando, atualmente, umas poucas ruínas no Brasil, Argentina e Paraguai (clique aqui se quiser saber mais sobre as Missões).

Diante dos conflitos na Colônia de Sacramento, as tropas espanholas procuraram fortalecer sua retaguarda ocupando Montevidéu e arredores, e as portuguesas estabeleceram o seu núcleo de apoio na cidade de Rio Grande, principal cidade portuária do Rio Grande do Sul.

No atual Uruguai, pouco depois de Rio Grande, próximo ao Chuí e Chuy, a posse esteve ora com a Coroa Espanhola, ora com a Coroa Portuguesa.

No lado português, depois de Rio Grande, os imensos banhados e lagoas que separavam a região do Uruguai dificultavam a ocupação e, mesmo, a movimentação de tropas.

Esta era a "terra de ninguém" ou os "Campos Neutrais", reconhecidos pelo Tratado de Santo Ildefonso.

Campos Neutrais também terminou sendo a denominação de um povoado surgido na região e que atualmente tem o nome de Santa Vitória do Palmar, município que é o principal ponto de apoio para uma visita a essa região.

Essa área passou ao controle português quando o governador-geral da capitania que deu origem ao Rio Grande do Sul, dom Diogo de Souza, doou sesmarias aos oficiais que o auxiliaram na intervenção armada feita no atual Uruguai, a pedido do vice-rei espanhol, quando Artigas cercou Montevidéu, durante a revolução de independência da Argentina (à qual estava integrada a banda oriental do Uruguai).

Dom Diogo derrotou Artigas e, com esse trunfo, tomou a iniciativa de ocupar os Campos Neutrais, apesar do impedimento estabelecido no Tratado de Santo Ildefonso.

Somente em 1851 houve o reconhecimento da posse e, quatro anos depois, é que surgiu a vila que daria origem ao atual município de Santa Vitória do Palmar.


SANTA VITÓRIA DO PALMAR

O município de Santa Vitória do Palmar é praticamente um istmo na península do Albardão, isolado pelas lagoas Mangueira e Mirim, de um lado; pelo banhado do Taim do outro, e tendo à Leste o mar.

A sua ligação com a cidade de Rio Grande é relativamente recente -- a única estrada que corta a região, a BR-471, foi aberta no governo Dutra e somente asfaltada no governo Médici, no início da década de 70.

Isolada, pouco cobiçada e sem maiores atrativos, essa era a região ideal (no passado, é claro) para esconderijo de malfeitores, o que não passou desapercebido a mafiosos calabreses, que pretendiam estabelecer-se, já naquela época, em local seguro.

Não se sabe exatamente quando eles chegaram à região, mas é quase certo que isso ocorreu nos primeiros anos da antiga Campos Neutrais, por determinação do duque de Abruzzi -- Luigi Amadeo de Sabóia --, um explorador do Pólo Norte que possivelmente estava interessado em também ter um ponto de apoio para o caso de aventurar-se pelo Pólo Sul.

Com o beneplácido do duque de Abruzzi, refugiados italianos da Calábria formaram uma colônia de artesãos e criaram, para protegê-los, a Societá Benevolenza italiana, também conhecida por Honorata Societá, nos moldes da máfia.

A sede, na rua General Osório, ainda é preservada e pode ser vista, mas sem acesso ao seu interior. Está fechada porque, pertencendo ao governo italiano, ninguém mais pôde fazer nada para recuperá-la.

Quando Mussolini chegou ao poder na Itália, a Honorata tornou-se um núcleo fascista e, em 1938, foi dissolvida, passando todo o seu patrimônio ao governo italiano. Durante a Segunda Guerra Mundial foi confiscada e, com a paz, voltou novamente para o controle do governo italiano, que, de seu lado, nunca fez nada para preservar ou recuperar o imóvel. Há alguns anos os documentos que restaram foram resgatados pelo historiador Péricles Azambuja e levados para o consulado italiano em Porto Alegre -- entre esses documentos encontravam-se a ata de fundação e estatutos.


CEMITÉRIO DE NAVIOS

São muitas as histórias do banditismo nos Campos Neutrais. Assaltantes, ladrões de gado e assassinos, procurados no Brasil e Uruguai, aterrorizavam a população da região, transmitindo-se, de geração a geração, informações esparsas que terminaram chegando aos livros de história, algumas das quais muito curiosas.

Conta-se, por exemplo, que havia grupos especializados no ataque a navios que passavam próximo à costa. Colocavam tochas nos chifres dos bois para simular a existência de faróis sinalizadores, desviando assim a rota das embarcações. Como a costa é muito perigosa, com traiçoeiros bancos de areia, e o mar bastante agitado, os navios acabavam encalhando e, então, eram saqueados.

Entre Chuí e Maldonado, no Uruguai, contam-se 60 navios encalhados próximo à costa -- uns atraídos pelos saqueadores e outros em consequência das condições da costa, com bancos de areia e muitas rochas.

Entre Chuí e Rio Grande existem também inúmeros navios. Embora se conte que alguns deles estariam carregados com prata e ouro que seguiam das colônias espanholas para a Espanha, até hoje ninguém conseguiu provar isso, não havendo qualquer pista dos tesouros. Mas os navios estão lá. Como são muitos, a região chega a ser apontada como sendo um cemitério de navios.

O navio mais famoso, afundado na região, é o "Prince of Wales", de bandeira inglesa, que deu origem à chamada "Questão Christie", relatada em nossa história. Depois do naufrágio, a 30 quilômetros ao sul do Farol do Albardão, os ingleses acusaram os brasileiros de terem saqueado o navio.

Indignados com a acusação, moradores da cidade de Rio Grande chegaram a fazer uma passeata de protesto na cidade. E hoje, mesmo passado tanto tempo, ainda há quem veja o que restou do velho navio, quando a maré está muito baixa.

O Farol do Albardão está a 87 quilômetros da Barra do Chuí, pela beira da praia. A região é deserta, as praias perigosas, mas quem arriscar uma aventura pode fazer um passeio muito bonito, viajando com muito cuidado até o local, aconselhando-se bem sobre as condições do trajeto, em Santa Vitória do Palmar.

Os interessados devem falar com motoristas de táxi ou de ônibus.

Além do Albardão, há ainda o Farol da Sarita, na divisa dos municípios de Santa Vitória do Palmar e Rio Grande, a 135 quilômetros da Barra do Chuí. O acesso até lá também somente pode ser feito por barco ou pela beira da praia, valendo a recomendação feita em relação ao Albardão: ninguém deve se aventurar a fazer a viagem antes de ouvir o pessoal que conhece bem o percurso pois, se a maré subir rapidamente, não haverá para onde fugir com o carro.

No farol da Barra do Chuí também é possível fazer visitação. Trata-se de um lugar igualmente interessante e de acesso mais fácil, a partir do Chuí.


Veja completa reportagem do RS VIRTUAL sobre
o Cemitério de Navios na costa gaúcha