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Fronteira Gaúcha
Cemitério de Navios na Costa do Rio Grande
do Sul
Ciclones e grandes
ondas transformaram
o sul em um cemitério de navios
Há mais de
duzentos anos, nos Campos Neutrais, bandoleiros colocavam tochas em
chifres de bois para simular a existência de faróis sinalizadores e
desviar os navios de suas rotas. Assolados por ventos fortes, ondas
enormes e por bancos de areia traiçoeiros, dezenas de navios não
resistiam e naufragavam ou encalhavam na beira da praia, tornando-se
presas fáceis para os grupos armados que aterrorizavam essa terra de
ninguém. As praias de mar aberto por onde antes perambulavam os
bandoleiros estão tomadas hoje por aves migratórias que atravessam o
continente para escapar do frio do Hemisfério Norte, criando um tapete
de vida de rara beleza. Mas os perigos do mar continuam, justificando a
fama de cemitério de navios, que atravessa os séculos. Nos 267 anos de
história do Rio Grande do Sul contam-se ao menos 270 naufrágios em sua
costa, que são mais comuns justamente nesta época, quando os ciclones
agitam o mar, levando perigo para navios de todos os portes.
— Há uma clara relação entre os naufrágios e a passagem de frentes frias
na região — revela Rodrigo de Oliveira Torres, aluno do curso de
oceanografia da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), responsável
pelo levantamento mais completo realizado até o momento sobre os
naufrágios na costa sul, que será o seu trabalho de conclusão de curso e
também está sendo desenvolvido com o apoio do Museu Náutico do Museu
Oceanográfico da Furg. O total de naufrágios, segundo ele, pode ser bem
superior, porque não há um levantamento confiável relativo aos últimos
60 anos. O próprio comandante dos portos do Rio Grande do Sul, Delfos
Polycarpo Damião, confirma que a Capitania não possui informações
disponíveis sobre os naufrágios ocorridos nos últimos anos.
As tragédias dos mares do sul têm dois momentos: até o início do século
passado, além das ameaças do mar, havia o pesadelo da entrada na barra
do Porto de Rio Grande, que tinha baixa profundidade e bancos de areia
em constante movimentação. Depois disso, com a construção de molhes
aumentando a profundidade do canal, o acesso ficou mais fácil, mas a
turbulência continuou. Ainda em 1999, enquanto aguardava para atravessar
a barra, o navio graneleiro Minghai foi empurrado pelos fortes ventos
(vindos de sudeste e conhecidos como “carpinteiro da praia”) até a beira
da praia em São José do Norte, do outro lado do canal, em frente ao
porto, e somente foi salvo porque os ventos mudaram e voltaram a
empurrá-lo para o mar. Mas nem todos tiveram essa sorte. Em 1976 o navio
Altair foi empurrado para a beira da praia e não conseguiu escapar.
Terminou sendo abandonado a 12 quilômetros do Cassino e hoje é uma das
atrações turísticas e cartão postal desse balneário da cidade de Rio
Grande.
— No ano passado foram dois naufrágios, ambos de barcos pesqueiros que
navegam com menor segurança e muitas vezes descumprindo orientações para
não saírem para o mar. Em julho houve o naufrágio do Magalhães II, no
Albardão, que chegou até a praia empurrado por um ciclone. Em setembro
ocorreu o segundo, a 270 quilômetros da costa, na altura de Tramandaí,
no litoral norte. Uma onda gigantesca durante um ciclone virou o barco,
matando dois tripulantes e deixando os outros seis à deriva. Somente
foram localizados quatro dias depois — acrescenta Rodrigo Torres.
A turbulência dos mares do sul acompanha todos os momentos da história
do Estado e já foi o tema de muitos livros, teses e pesquisas. Mais
recentemente resultou no livro “Náufragos e naufrágios no litoral do Rio
Grande”, de Francisco das Neves Alves e Hugo Alberto Pereira Neves,
publicado em 2001 pela Furg, com um levantamento detalhado dos
naufrágios ocorridos entre 1822 e 1889, pouco antes da construção dos
molhes da barra. Apenas nesse período aconteceram 114 naufrágios,
envolvendo embarcações de 17 países. Apenas em um dia (14 de maio de
1856) ocorreram sete naufrágios. Em 11 de agosto de 1887 foram
registrados outros cinco, um deles, o do navio Rio Apa, matando 113
pessoas. Houve 0,2 navio afundado para cada 390 entradas de navios no
Porto de Rio Grande e um navio perdido para cada 2.435 saídas do porto,
justificando a histórica denominação de cemitério de navios. Apenas
entre o Chuí e Maldonado, no Uruguai, existem 60 navios encalhados e
afundados próximo à costa, muitos deles visíveis quando a maré está
baixa.
Os restos do navio inglês “Prince of Wales”, afundado em junho de 1861,
ao sul do farol do Albardão, no extremo sul do Rio Grande do Sul, estão
entre os que, segundo moradores de Santa Vitória do Palmar, ainda podem
ser vistos de vez em quando, quando a maré baixa. Esse navio estaria
entre os que foram atraídos para a beira da praia pelos bandoleiros que
aterrorizavam os campos neutrais há dois séculos, incidente que foi o
pivô da chamada “Questão Christie”, que quase resultou em um conflito
armado com a Inglaterra, que chegou a deslocar barcos de guerra para a
região.
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