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Fronteira Gaúcha
Sant'Ana do Livramento
Os centauros, por entre o gado e as emas
Emílio Fontes Ferreira, embora uruguaio de nascimento, é filho de pais brasileiros.
Aposentou-se no Brasil e o povo do pampa somente o reconhece como castelhano pelo fato de
apertar a mão durante o cumprimento. Ali, quem é brasileiro somente junta as mãos com
os dedos para cima, e bate no braço e ombro do companheiro.
Para uruguaios ou brasileiros, entretanto, os campos estão abertos. É neles, sem um
endereço fixo, que vivia anos atrás o "seu" Emílio - como poderia ser
qualquer outra pessoa que, como ele, passa a vida andando entre um campo e outro, fazendo
do pampa sua casa e sua vida. Eles troteiam permanentemente com dois companheiros
inseparáveis: um cavalo e um cachorro, juntamente com suas tralhas - o pala, peles de
ovelha, cuia do chimarrão, umas poucas roupas e algumas bugigangas.
Seu Emílio e outros peões aposentados que seguem o mesmo ritmo de vida é um autêntico
centauro dos pampas, segundo a terminologia da Campanha. Sempre em cima do cavalo, e com o
pala protegendo o corpo do frio, termina por se confundir com o animal. Ao andar, suas
pernas são curvadas. Mas os homens são fortes apesar de, muitas vezes, estarem com idade
avançada. Emílio, por exemplo, se considerava um "nativo brasileiro" e nunca
quis saber de outra vida.
Trabalhou desde os 10 anos e, desde que se lembrava, sempre foi peão, tendo passado por
diversas estâncias. "Eu sou conhecido por isto aqui tudo", dizia orgulhoso há
alguns anos. Desde que se aposentou, passou a percorrer as fazendas. Nunca se casou
porque, como explica, os amigos tomavam as suas mulheres e ele desistiu de encontrar uma
companheira que quisesse ficar com ele. Portanto, também nunca teve uma casa. O pampa
era, efetivamente, a sua casa.
Assim, a vida de Emílio, como de outros peões aposentados, se resumia a ir ao banco de
Livramento uma vez por mês para receber a aposentadoria e, de lá, tomar um rumo sempre
em frente com seu cavalo, parando de fazenda em fazenda.
Há na fronteira um costume segundo o qual se dá comida e abrigo a qualquer viajante, sem
perguntar-se para onde vai, de onde está vindo, e o que está fazendo. Basta apear do
cavalo, aproximar-se do fogo de chão e participar da roda de chimarrão, sem a
necessidade de trocar o pouso e a comida por qualquer tipo de trabalho.
Passando do Brasil para o Uruguai, do Uruguai para o Brasil, um mês parando em umas
fazendas, no outro em outras, os "seus" Emílios vão levando suas vidas. Alguns
desses troteadores percorrem as fazendas até mesmo a pé. Seja como for, fazem parte da
paisagem. Eles percorrem as fazendas para "levar a vida", movimentando-se por
entre o gado e as emas, que são criadas junto com o gado e protegidas, tanto pelos peões
quanto pelos patrões e grandes proprietários rurais da região. Também fazem parte da
paisagem.
Esses velhos andarilhos não interrompem suas andanças nem mesmo no inverno, quando bate
o minuano. Para um "gaúcho" autêntico como eles, qualquer tempo é tempo.
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