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Conheça a biodiversidade do litoral gaúcho
(transcrito do relatório "O Litoral além da praia", da
série "Paraísos", publicado pela Gazeta Mercantil em 19.10.98)
Embora a maior parte dos gaúchos prefira freqüentar somente as areias da praia, o
Litoral Norte apresenta várias outras paisagens. Dunas
e restingas isolam o mar de um rosário de
lagoas entremeadas de campos e matas paludosas. Nos contrafortes da serra,
uma abundante flora compõe a Mata
Atlântica.
Na região, predominam ventos fortes, principalmente o conhecido como
"Nordestão", que ao longo de milhares de anos modelou o contorno das lagoas e
ainda hoje desloca a areia que forma os cômoros.
As dunas costeiras têm a função de proteger o continente das freqüentes ressacas do
bravo mar aberto. As demais dunas são importantes para armazenar água subterrânea.
Neste ambiente vivem lagartixas, tuco-tucos e há uma vegetação rasteira, como a
margarida-das-dunas. Na beira da praia, garças e maçaricos se alimentam tranqüilos,
principalmente fora da temporada de veraneio.
Nas matas de restinga e lagoas vivem jacarés-do-papo-amarelo, capivaras, lontras e
ratões do banhado. Na floresta habitam quatis, graxains, gambás, tucanos e tatus.
Devido a estes diferentes ecossistemas, a área apresenta uma expressiva biodiversidade.
Para se ter uma idéia, o chefe do laboratório de Aracnologia do Departamento de Biologia
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, o biólogo Arno Antonio Lise,
descobriu três novas espécies de aranhas em uma caminhada de três horas pelas restingas
do Litoral Norte.
Uma das características marcantes é o conjunto de inúmeras
lagoas
que ocorrem na planície. Elas são resultado da acumulação de água do mar, da
formação de restingas arenosas que represam as águas vindas do continente.
A região foi mais ampla nas fases de regressão marinha, quando o mar pode ter chegado a
mais de 100 metros abaixo do nível atual. Depois, voltou a estreitar-se nas fases de
transgressão marinha, quando os níveis do mar atingiram de dois a três metros acima do
atual, transformando os morros de Torres em um arquipélago e as lagoas em um grande
viveiro de moluscos, de onde as populações pré-históricas extraíam seus alimentos,
dando origem aos sambaquis.
Os sambaquis
O Litoral Norte gaúcho já foi similar ao de Santa Catarina. As ondas do mar batiam nas
rochas da encosta da serra, no Morro Alto, Terra de Areia e Três Cachoeiras, onde hoje
passa a BR-101. Isso foi há quatro mil anos, durante o último aumento do nível do
oceano no continente. "A planície costeira foi inundada, transformando as falésias
de Torres em um paleoarquipélago", lembra Arno Kern no seu livro "Antecedentes
Indígenas".
O pesquisador ressalta que a regressão marinha só ocorreu aproximadamente há 3 mil
anos, quando teve início novo período de frio e de seca. Nesta época, tribos indígenas
anteriores aos guaranis, chamadas de sambaquianas, moravam no litoral, que, por sinal, foi
uma das últimas áreas do Estado ocupada pelos antepassados pré-históricos devido
justamente aos avanços e recuos do mar.
Um registro de trajetórias desses primeiros moradores da orla são os sambaquis, antigos
depósitos localizados ora na costa, ora nas lagoas ou rios do litoral, formados por
montões de conchas, utensílios de cozinha e esqueletos. Kern, que pesquisa sítios
arqueológicos há 20 anos, diz que o litoral tinha muitos sambaquis. Em Torres, por
exemplo, havia grandes concentrações destes sítios arquelógicos.
Hoje, entretanto, a especulação imobiliária e a retirada das dunas, entre outros
fatores, fizeram com que este patrimônio quase desaparecesse do mapa. Um dos que ainda
resistem, embora extremamente reduzido de seu tamanho original, é o Morro dos Índios, em
Xangri-Lá. É possível avistar da Estrada do Mar o monte circundado de casuarinas.
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